terça-feira, 1 de julho de 2014

3° Capitulo - Insurgente

Naquela noite, volto para o meu quarto e deslizo a mão embaixo do colchão para certificar-me de que a arma ainda está lá. Meus dedos deslizam sobre o gatilho, e minha garganta aperta como se eu estivesse tendo uma reação alérgica. Retiro minha mão e me ajoelho na extremidade da cama, respirando forte até que a sensação desaparece.
O que está errado com você? Eu abano a cabeça. Recomponha-se.
E é assim que parece: puxar as diferentes partes de mim como um cadarço. Eu me sinto sufocada, mas, pelo menos, me sinto forte.
Vejo um lampejo de movimento na periferia do meu olhar, e olho para fora da janela em frente ao pomar de maçã. Johanna Reyes e Marcus Eaton caminham lado a lado, parando no jardim de ervas para arrancar folhas de hortelã de suas hastes. Estou fora do meu quarto antes que possa pensar em por que eu quero segui-los.
Corro através da construção para não perdê-los. Assim que saio, tenho que ter mais cuidado. Dou a volta pelo outro lado da estufa, e depois que vejo Johanna e Marcus desaparecerem em uma fileira de árvores, rastejo para baixo da próxima linha, esperando que os ramos me escondam se qualquer um deles olhar para trás.
— ... estado confusa é com o momento do ataque — diz Johanna. — É só que Jeanine finalmente terminou de planejar, e agiu, ou houve um incidente de algum tipo?
Vejo o rosto de Marcus através de um tronco de árvore dividido. Ele aperta os lábios e diz:
— Hmm.
— Suponho que nunca saberemos — Johanna levanta a sobrancelha boa. — Saberemos?
— Não, talvez não.
Johanna coloca a mão em seu braço e se vira em direção a ele. Endureço de medo por um momento, esperando que ela me veja, mas ela olha apenas para Marcus. Eu me abaixo e engatinho em direção a uma das árvores, de modo que o tronco me esconda. A casca coça minhas costas, mas não me movo.
— Mas você sabe — ela fala. — Sabe porque ela atacou naquele momento. Posso não ser mais da Franqueza, mas ainda posso dizer quando alguém está escondendo a verdade de mim.
— A curiosidade é interesseira, Johanna.
Se eu fosse Johanna, eu me irritaria por um comentário como esse, mas ela diz gentilmente:
— Minha facção confia em mim para aconselhá-los, e se você conhece informações tão cruciais quanto esta, é importante que eu também saiba para que possa dividir com eles. Tenho certeza de que você pode entender, Marcus.
— Existe uma razão para você não saber todas as coisas que sei. Um longo tempo atrás, foram confiadas à Abnegação algumas informações delicadas — diz Marcus. — Jeanine nos atacou para roubá-las. E se eu não for cuidadoso, ela vai destruí-las, de modo que isso é tudo que eu posso dizer.
— Mas, certamente...
— Não — Marcus a corta. — Essa informação é muito mais importante do que você pode imaginar. A maioria dos líderes desta cidade arriscou suas vidas para protegê-las de Jeanine e morreram, e eu não vou comprometê-la agora para saciar a sua curiosidade egoísta.
Johanna fica calada por alguns segundos. Está tão escuro agora que eu mal posso ver minhas próprias mãos. O ar cheira a lama e maçãs, e eu tento não respirar muito alto.
— Sinto muito — Johanna fala — devo ter feito alguma coisa para fazer você acreditar que não sou digna de confiança.
— A última vez que confiei estas informações a um representante de facção, todos os meus amigos foram assassinados — ele responde. — Eu não confio em mais ninguém.
Eu não posso evitar – me inclino para frente para que eu possa ver em torno do tronco da árvore. Ambos, Marcus e Johanna, estão preocupados demais para notar o movimento. Eles estão juntos, mas não se tocam, e eu nunca vi Marcus parecer tão cansado ou Johanna tão irritada. Mas seu rosto suaviza, e ela toca o braço de Marcus novamente, desta vez com uma leve carícia.
— Para ter paz, nós devemos primeiro ter confiança. Então espero que você mude de ideia. Lembre que eu sempre fui sua amiga, Marcus, mesmo quando você não tinha muitos.
Ela se inclina e beija sua bochecha, então vai para o final do pomar. Marcus fica por alguns segundos, aparentemente atordoado, e vai em direção do complexo.
As revelações da meia-hora passada ficam zumbindo em minha mente. Pensei que Jeanine tivesse atacado a Abnegação para ganhar o poder, mas ela atacou para roubar informações – informações que só eles sabiam.
Em seguida, o zumbido passa quando me lembro de outra coisa que Marcus disse: A maioria dos líderes desta cidade arriscaram suas vidas por elas. Meu pai era um daqueles líderes?
Eu tenho que saber. Tenho que descobrir o que poderia ser importante o suficiente para a Abnegação morrer – e a Erudição matar.



Faço uma pausa antes de bater à porta de Tobias, e ouço o que está acontecendo lá dentro.
— Não, não é assim — Tobias diz através do riso.
— O que você quer dizer com, não é assim? Eu imitei perfeitamente. — A segunda voz pertence a Caleb.
— Você não imitou, não.
— Bem, faça de novo, então.
Eu abro a porta, justo quando Tobias, que está sentado no chão com uma perna esticada, lança uma faca de manteiga na parede oposta. Ela adere, com o cabo para fora, em um pedaço grande de queijo posicionado no topo do armário. Caleb, de pé ao lado dele, olha em descrença, primeiro para o queijo e depois para mim.
— Diga-me que ele é algum tipo de prodígio Audácia — diz Caleb. — Você pode fazer isso também?
Ele parece melhor do que estava antes – seus olhos não estão mais vermelhos e algo da antiga centelha de curiosidade está neles, como se ele estivesse interessado no mundo novamente. Seu cabelo castanho está desgrenhado, a camisa com botões nas casas erradas. Ele é bonito de forma descuidada, meu irmão, como se não tivesse ideia de como parece na maior parte do tempo.
— Com a minha mão direita, talvez — eu digo. — Mas sim, Quatro é uma espécie de prodígio da Audácia. Posso perguntar por que você está atirando facas no queijo?
Os olhos de Tobias encontram os meus na palavra Quatro. Caleb não sabe que Tobias usa sua excelência o tempo todo em seu próprio apelido.
— Caleb veio para discutir uma coisa — Tobias responde, inclinando a cabeça contra a parede enquanto olha para mim. — E jogar a faca só apareceu de alguma forma.
— Como muitas vezes o faz — digo, um pequeno sorriso avançando seu caminho em toda minha face.
Ele parece tão relaxado com a cabeça para trás, o braço pendurado no joelho. Nós olhamos um para o outro por mais tempo do que é socialmente aceitável. Caleb limpa a garganta.
— De qualquer forma, eu deveria voltar para o meu quarto — Caleb diz, olhando de Tobias para mim e vice-versa. — Estou lendo este livro sobre sistemas de filtração de água. O garoto que me deu me olhou como se eu fosse louco por querer lê-lo. Acho que deveria ser um manual de reparo, mas é fascinante — ele faz uma pausa. — Desculpe. Você provavelmente pensa que eu sou louco também.
— Nem um pouco — Tobias responde com sinceridade fingida. — Talvez você deva ler o manual de reparo também, Tris. Parece algo que você pode gostar.
— Eu posso te emprestar — Caleb diz.
— Talvez mais tarde — respondo.
Quando Caleb fecha a porta atrás dele, dou a Tobias um olhar sujo.
— Obrigada por isso. Agora ele vai falar até minha orelha cair sobre filtração de água e como ela funciona. Embora eu ache que posso preferir isso ao que ele quer falar comigo.
— Oh? E o que é isso? — As peculiares sobrancelhas de Tobias se erguem. — Aquaponia?
— Aqua o quê?
— É uma das maneiras que eles produzem alimentos aqui. Você não quer saber.
— Você está certo, eu não quero. Sobre o que ele veio falar com você?
— Você — ele responde. — Acho que foi a conversa de irmão mais velho. “Não mexa com a minha irmã” e tudo isso.
Ele se levanta.
— O que você disse a ele?
Ele vem em minha direção.
— Contei a ele como nos aproximamos – que é como surgiu a faca de arremesso — ele diz — e eu disse que não estava brincando.
Eu me sinto quente em toda parte. Ele envolve as mãos em torno de meus quadris e me pressiona suavemente contra a porta. Seus lábios encontram os meus.
Eu não me lembro por que vim aqui, em primeiro lugar.
E não me importo.
Envolvo meu braço não lesionado em torno dele, puxando-o contra mim. Meus dedos encontram a bainha de sua camiseta, e deslizam por baixo, espalhando amplamente sobre suas costas. Ele parece tão forte.
Ele me beija de novo, mais insistente desta vez, com as mãos apertando a minha cintura. Sua respiração, minha respiração, seu corpo, meu corpo, estamos tão perto, não há diferença.
Ele se afasta, apenas alguns centímetros. Eu quase não deixo que se afaste.
— Não é por isso que você veio aqui — ele fala.
— Não.
— Por que você veio, então?
— Quem se importa?
Eu empurro meus dedos através de seu cabelo, e puxo a sua boca para a minha novamente. Ele não resiste, mas depois de alguns segundos, murmura, “Tris,” contra a minha bochecha.
— Ok, ok.
Fecho meus olhos. Eu vim aqui por algo importante: contar a ele a conversa que ouvi.
Sentamos lado a lado na cama de Tobias, e começo a partir do início. Eu digo a ele como segui Marcus e Johanna para o pomar. Falo sobre a pergunta de Johanna sobre o momento da simulação de ataque, e a resposta de Marcus, e a discussão que se seguiu. Enquanto falo, observo sua expressão. Ele não parece chocado ou curioso. Em vez disso, a sua boca trabalha o seu caminho para o trejeito amargo que acompanha qualquer menção de Marcus.
— Bem, o que você acha? — pergunto uma vez que termino.
— Eu acho — ele responde com cuidado — que é Marcus tentando se sentir mais importante do que ele é.
Essa não era a resposta que eu esperava.
— Então... O quê? Você acha que ele está apenas falando bobagem?
— Acho que provavelmente tem algumas informações que a Abnegação sabia e que Jeanine queria saber, mas acho que ele está exagerando sua importância. Tentando construir o seu próprio ego, fazendo Johanna acreditar que ele tem algo que ela quer e ele não vai dar.
— Eu não... — franzo a testa. — Eu não acho que você está certo. Ele não soava como se estivesse mentindo.
— Você não o conhece como eu. Ele é um mentiroso excelente.
Ele está certo – eu não conheço Marcus, e certamente não tão bem como ele. Mas meu instinto foi de acreditar em Marcus, e eu costumo confiar nos meus instintos.
— Talvez você esteja certo, mas não devemos descobrir o que está acontecendo? Só para ter certeza?
— Acho que é mais importante que lidemos com a situação que temos nas mãos. Voltar para a cidade. Descobrir o que está acontecendo lá. Encontrar uma maneira de derrubar a Erudição. Então, talvez possamos descobrir sobre o que Marcus estava falando, após resolver tudo isso. Ok?
Concordo com a cabeça. Parece um bom plano – um plano inteligente. Mas eu não acredito nele – não acredito que é mais importante avançar do que encontrar a verdade. Quando eu descobri que era Divergente... Quando descobri que a Erudição iria atacar a Abnegação... Essas revelações mudaram tudo. A verdade tem uma maneira de mudar os planos de uma pessoa.
Mas é difícil convencer Tobias a fazer algo que ele não quer, e ainda mais difícil justificar os meus sentimentos sem evidência, exceto a minha intuição.
Então, eu concordo. Mas não mudo de ideia.

2° Capitulo - Insurgente

Abro os olhos, apavorada, minhas mãos agarrando os lençóis. Mas não estou correndo pelas ruas da cidade ou nos corredores da sede da Audácia. Estou em uma cama na sede da Amizade, e o cheiro de serragem está no ar.
Mudo de posição e estremeço com algo machucando minhas costas. Tateio atrás de mim, e os meus dedos envolvem a arma.
Por um momento vejo Will de pé diante de mim, nossas armas entre nós – sua mão, eu poderia ter atirado em sua mão, por que não atirei ali, por quê? – e eu quase grito seu nome.
Em seguida, ele se foi.
Saio da cama e levanto o colchão com uma mão, apoiando-o em meu joelho. Então enfio a arma por baixo e deixo o colchão enterrá-la. Uma vez que está fora da vista e não mais pressionando a minha pele, minha cabeça fica mais clara.
Agora que a adrenalina de ontem se foi, e tudo o que me fez dormir se esgotou, as dores profundas do tiro em meu ombro são intensas. Estou usando as mesmas roupas da noite passada. O canto do disco rígido espreita debaixo do meu travesseiro, onde o coloquei antes de adormecer. Nele estão os dados da simulação que controlava a Audácia, e o registro do que a Erudição fez. Ele é muito importante para mim, mas não posso deixá-lo aqui, então o agarro e encosto-o entre a cômoda e a parede. Parte de mim acha que seria uma boa ideia destruí-lo, mas sei que contém o único registro de morte de meus pais, por isso resolvi mantê-lo escondido.
Alguém bate na minha porta. Sento-me na beira da cama e tento alisar meu cabelo para baixo.
— Entre — digo.
A porta se abre, e Tobias fica no meio caminho, a porta dividindo seu corpo ao meio. Ele usa o mesmo jeans de ontem, mas uma camisa vermelha escura em vez da sua preta, provavelmente emprestada de alguém da Amizade. É uma cor estranha para ele, muito brilhante, mas quando ele inclina a cabeça para trás contra o batente da porta, vejo que faz o azul de seus olhos mais leve.
— A Amizade está se reunido em uma hora e meia — ele levanta suas sobrancelhas e acrescenta, com um toque de melodrama — para decidir o nosso destino.
Balanço a cabeça.
— Nunca pensei que meu destino estaria nas mãos de um grupo da Amizade.
— Eu também não. Ah, trouxe uma coisa — ele desenrosca a tampa de uma garrafa pequena e tem um conta-gotas cheio de líquido claro. — Medicamento para dor. Tome uma dose a cada seis horas.
— Obrigada — aperto o conta-gotas na parte de trás da minha garganta.
O remédio tem gosto de limão velho.
Ele prende um polegar em uma das alças do cinto e diz:
— Como você está, Beatrice?
— Você acabou de me chamar de Beatrice?
— Pensei em fazer uma tentativa — ele sorri. — Não é bom?
— Talvez apenas em ocasiões especiais. Cerimônias de iniciação, Cerimônias de Escolha... — Faço uma pausa.
Eu estava prestes a recitar alguns feriados mais, mas só a Abnegação os celebra. A Audácia tem seus próprios dias, assumo, mas não sei quais são. E de qualquer maneira, a ideia de comemorar algo agora era tão ridícula que não continuei.
— É um acordo — seu sorriso desaparece. — Como você está, Tris?
Não é uma pergunta estranha, depois do que nós passamos, mas eu fico tensa quando ele pergunta, preocupada que ele vai ver de alguma forma em minha mente. Eu não contei a ele sobre Will ainda. Eu quero, mas não sei como. Apenas o pensamento de dizer as palavras em voz alta me faz sentir tão pesada que eu poderia romper o piso.
— Eu estou... — balanço a cabeça algumas vezes. — Eu não sei, Quatro. Eu estou acordada. Eu...
Eu ainda estou balançando a cabeça. Ele desliza a mão sobre minha bochecha, um dedo ancorado atrás da minha orelha. Então inclina a cabeça para baixo e me beija, enviando uma dor quente pelo meu corpo. Envolvo minhas mãos em torno de seu braço, segurando-o lá o tempo que posso. Quando ele me toca, o sentimento oco no meu peito e estômago não é tão perceptível.
Eu não tenho nada para dizer. Posso apenas tentar esquecer – ele pode me ajudar a esquecer.
— Eu sei — diz ele. — Desculpe. Eu não deveria ter perguntado.
Por um momento, tudo o que posso pensar é: Como você poderia saber? Mas algo sobre sua expressão lembra-me que ele sabe alguma coisa sobre a perda. Ele perdeu sua mãe quando era jovem. Não me lembro de como ela morreu, só que nós fomos ao seu funeral.
De repente, eu me lembro dele segurando as cortinas em sua sala de estar, com cerca de nove anos de idade, vestindo cinza, seus olhos escuros fechados. A imagem é passageira, e pode ser a minha imaginação, não uma memória.
Ele me libera.
— Vou deixar você se arrumar.



O banheiro feminino é duas portas abaixo. O piso é de ladrilho marrom escuro, e cada chuveiro tem paredes de madeira e uma cortina de plástico que o separa do corredor central. Uma placa na parede de trás diz LEMBRE-SE: PARA CONSERVAR RECURSOS, OS CHUVEIROS FUNCIONAM POR APENAS CINCO MINUTOS.
O fluxo de água é frio, então eu não gostaria de minutos extras mesmo que pudesse tê-los. Me lavo rapidamente com a mão esquerda, deixando a mão direita pendurada ao meu lado. O remédio para dor que Tobias me deu trabalhou rápido – a dor em meu ombro já se transformou em um pulsar dolorido.
Quando saio do chuveiro, uma pilha de roupas espera na minha cama. Contém um pouco de amarelo e vermelho, da Amizade, e alguns cinzas da Abnegação, cores que raramente vejo lado a lado. Se eu tivesse que adivinhar, diria que alguém da Abnegação colocou a pilha lá para mim. É algo que eles pensariam em fazer.
Puxo um par de calças vermelhas escuras feitas de brim – tão grandes que tenho que enrolá-las três vezes – e uma camisa cinza da Abnegação grande demais. As mangas vêm até os meus dedos, e eu as enrolo também. Dói quando movo a minha mão direita, então mantenho os movimentos pequenos e lentos.
Alguém bate na porta.
— Beatrice? — A voz suave é de Susan.
Eu abro a porta para ela. Ela carrega uma bandeja de comida, que deixa em cima da cama. Procuro em seu rosto por um sinal do que ela perdeu – seu pai, um líder da Abnegação, não sobreviveu ao ataque – mas vejo apenas a plácida determinação característica da minha velha facção.
— Sinto muito pelas roupas não caberem. Tenho certeza de que podemos encontrar outras melhores para você se a Amizade permitir que fiquemos.
— Elas estão boas — respondo. — Obrigada.
— Ouvi dizer que você foi baleada. Você precisa da minha ajuda com o cabelo? Ou seus sapatos?
Estou prestes a recusar, mas eu realmente preciso de ajuda.
— Sim, muito obrigada.
Sento-me em um banquinho na frente do espelho, e ela está atrás de mim, com os olhos devidamente treinados sobre a tarefa em mãos, em vez de seu reflexo. Eles não se erguem, nem mesmo por um instante, enquanto ela corre um pente em meu cabelo. E ela não pergunta sobre o meu ombro, como fui baleada, o que aconteceu quando saí da casa segura da Abnegação para parar a simulação. Tenho a sensação de que se eu fosse até seu núcleo, ela estaria com a Abnegação por todo o caminho.
— Você já viu Robert? — pergunto.
Seu irmão, Robert, escolheu Amizade quando escolhi Audácia, então ele está em algum lugar deste complexo. Gostaria de saber se o reencontro vai ser qualquer coisa como o de Caleb e eu.
— Brevemente, ontem à noite. Eu o deixei ficar de luto com sua facção enquanto fico com a minha. Mas é bom vê-lo novamente.
Ouço em seu tom que o assunto está encerrado.
— É uma pena que isso tenha acontecido agora — diz Susan. — Nossos líderes estavam prestes a fazer algo maravilhoso.
— Sério? O quê?
— Eu não sei — Susan cora. — Eu só sabia que algo estava acontecendo. Não tive a intenção de ser curiosa, apenas notei coisas.
— Eu não culpo você por ser curiosa, mesmo que tivesse sido.
Ela acena com a cabeça e continua penteando. Eu me pergunto o que os líderes da Abnegação, incluindo meu pai, estavam fazendo. E eu não posso deixar de me maravilhar com a suposição de Susan de que o que eles estavam fazendo era maravilhoso. Eu gostaria de poder acreditar nas pessoas de novo.
Se é que eu já acreditei.
— Os integrantes da Audácia usam o cabelo solto, certo? — ela pergunta.
— Às vezes. Você sabe como trançar?
Então, seus dedos hábeis dobram mechas do meu cabelo em uma trança que faz cócegas no meio da minha espinha. Olho para o meu reflexo duro até que ela termine. Agradeço a ela quando termina, e ela sai com um pequeno sorriso, fechando a porta atrás de si.
Eu continuo olhando, mas não me vejo. Ainda posso sentir os dedos dela roçando a minha nuca, tão parecidos com os dedos de minha mãe, na última manhã que passei com ela. Meus olhos se enchem de lágrimas, eu balanço para trás e para frente no banco, tentando empurrar a memória da minha mente. Tenho medo de que se eu começar a chorar, nunca vou parar, até murchar como uma passa.
Vejo um kit de costura na cômoda. Nele tem linhas de duas cores, vermelho e amarelo, e um par de tesouras.
Me sinto calma quando desfaço a trança no meu cabelo e penteio novamente. Parto meu cabelo no meio e certifico-me de que ele está reto e liso. Fecho a tesoura sobre o cabelo no meu queixo.
Como posso ter a mesma aparência quando ela se foi e tudo está diferente? Eu não posso.
Corto o mais reto que consigo, usando meu queixo como guia. A parte complicada é a parte de trás, que não posso ver muito bem, então faço o melhor que posso pelo toque em vez da visão. Mechas de cabelos loiro me cercam no chão, em um semicírculo.
Saio do quarto sem olhar para o meu reflexo novamente.



Quando Tobias e Caleb vêm me buscar mais tarde, eles olham para mim como se eu não fosse a pessoa de ontem.
— Você cortou seu cabelo — Caleb comenta, com as sobrancelhas altas.
Notar as coisas em meio ao choque é muito Erudito dele. Seu cabelo está amassado do lado onde ele apoiou durante o sono, e seus olhos estão vermelhos.
— Sim. É... está muito quente para o cabelo longo.
— É justo.
Andamos pelo corredor juntos. O assoalho range sob nossos pés. Sinto falta da forma como os meus passos ecoavam no complexo da Audácia; sinto falta do ar frio subterrâneo. Mas, principalmente, sinto falta dos medos das últimas semanas, que viraram pequenos frente aos meus medos de agora.
Saímos do prédio. O ar exterior se comprime em torno de mim como um travesseiro querendo me sufocar. Cheira a verde, do mesmo jeito de uma folha quando você a rasga ao meio.
— Todo mundo sabe que você é filho de Marcus? — Caleb pergunta. — A Abnegação, eu quero dizer?
— Não que eu saiba — Tobias responde, olhando para Caleb. — E eu gostaria que você não mencionasse isso.
— Eu não preciso mencionar. Qualquer pessoa com olhos pode ver por si mesma — Caleb fez uma carranca para ele. — Quantos anos você tem, afinal?
— Dezoito.
— E você não acha que está velho demais para estar com a minha irmãzinha?
Tobias solta uma risada curta.
— Ela não é sua zinha nada.
— Parem com isso. Os dois — eu digo.
Uma multidão de pessoas de amarelo caminha à nossa frente, em direção a um prédio – um amplo edifício feito inteiramente de vidro. A luz do sol reflete nos painéis como um aperto em meus olhos. Protejo meu rosto com a mão e continuo caminhando.
As portas do edifício estão abertas. Em torno da borda da estufa circular, as plantas e as árvores crescem em tinas de água ou pequenas piscinas. Dezenas de ventiladores posicionados ao redor da sala servem apenas para soprar o ar quente ao redor, então eu já estou suando. Mas isso se apaga da minha mente quando a multidão diante de mim afina e vejo o resto da sala.
Em seu centro, cresce uma enorme árvore. Seus ramos se espalham sobre a maior parte da estufa, e suas raízes acima do solo formam uma densa rede de casca. Nos espaços entre as raízes não vejo sujeira, mas água e barras de metal que prendem as raízes no lugar. Eu não deveria estar surpresa. A Amizade passa a vida realizando façanhas da agricultura como esta, com a ajuda da tecnologia da Erudição.
De pé sobre um conjunto de raízes está Johanna Reyes, o cabelo caindo sobre a metade de seu rosto cheio de cicatrizes. Aprendi em História das Facções que a Amizade não reconhece nenhum líder oficial – eles votam em tudo, e o resultado é geralmente perto de unânime. São como muitas partes de um pensamento único, e Johanna é a sua porta-voz.
A Amizade se senta no chão, a maioria com as pernas cruzadas como um laço, formando grupos que lembram vagamente as raízes da árvore para mim. A Abnegação senta em filas apertadas, alguns metros à minha esquerda. Meus olhos procuram a multidão por alguns segundos antes de saber o que estou procurando: meus pais.
Eu engulo em seco e tento esquecer. Tobias toca a minhas costas, me guiando para a borda do espaço de reunião, por trás da Abnegação. Antes de sentar-se, ele coloca a boca próxima ao meu ouvido e diz:
— Gosto do seu cabelo assim.
Acho um pequeno sorriso para dar a ele, e inclino para ele quando me sento, meu braço contra o seu.
Johanna levanta as mãos e inclina a cabeça. Todas as conversas na sala cessam antes que eu possa respirar mais uma vez. Ao meu redor, a Amizade senta em silêncio, alguns com os olhos fechados, alguns com os lábios dizendo palavras que não posso ouvir, alguns olhando para um ponto distante.
Cada segundo irrita, até o momento que Johanna levanta a cabeça.
— Temos hoje diante de nós uma questão urgente — diz ela — que é: como vamos nos comportar neste momento de conflito como pessoas que buscam a paz?
Cada um da Amizade na sala se aproxima de uma pessoa próxima a ele ou ela e começa a falar.
— Como é que eles não fazem nada? — pergunto, à medida que os minutos de conversa passam.
— Eles não se importam com eficiência — diz Tobias. — Eles se preocupam com acordo. Observe.
Duas mulheres em vestidos amarelos a poucos metros de distância se levantam e se juntam a um trio de homens. Um jovem se desloca de modo que seu pequeno círculo torna-se um grande, com o grupo ao lado dele. Por toda a sala, as multidões menores crescem e se expandem, e menos e menos vozes enchem a sala, até ser apenas três ou quatro. Eu só posso ouvir pedaços do que eles dizem:
— Paz... Audácia... Erudição... casa segura... envolvimento.
— Isso é bizarro — eu digo.
— Eu acho que é bonito — ele responde.
Eu o encaro.
— O quê? — Ele ri um pouco. — Cada um tem um papel igual no governo; cada um se sente igualmente responsável. E isso os faz se importar; os faz serem bondosos. Eu acho que é bonito.
— Acho que é insustentável. Claro, funciona para a Amizade. Mas o que acontece quando nem todos querem dedilhar banjos e cultivar? O que acontece quando alguém faz algo terrível e falar sobre isso não pode resolver o problema?
Ele dá de ombros.
— Acho que nós vamos descobrir.
Eventualmente, alguém de cada um dos grandes grupos se levanta e se aproxima de Johanna, escolhendo o seu caminho com cuidado sobre as raízes da grande árvore. Espero que eles abordem o resto de nós, mas eles estão no círculo com Johanna, e outros porta-vozes e falam em voz baixa. Começo a ter a sensação de que nunca vou saber o que eles estão dizendo.
— Eles não vão nos deixar discutir com eles, vão?
— Duvido — ele concorda.
Estamos ferrados.
Quando todo mundo já falou a sua parte, sentam-se novamente, deixando Johanna sozinha no centro da sala. Ela vira seu corpo em direção a nós e cruza as mãos na frente dela. Para onde vamos quando nos disserem para sair? De volta para a cidade, onde nada é seguro?
— Nossa facção teve uma relação estreita com a Erudição por tanto tempo quanto qualquer um de nós pode lembrar. Precisamos uns dos outros para sobreviver, e sempre colaboramos um com o outro — diz Johanna. — Mas também tivemos uma forte relação com Abnegação no passado, e não achamos que é direito revogar a mão de Amizade quando ela por tanto tempo esteve estendida.
Sua voz é doce como mel, e ela se move como o mel também, lenta e cuidadosa. Eu enxugo o suor do meu cabelo com a palma da mão.
— Nós sentimos que a única maneira de preservar nossas relações com as duas facções é permanecermos imparciais e não envolvidos — continua ela. — Sua presença aqui, embora bem-vinda, complica isso.
Aí vem, eu penso.
— Chegamos à conclusão de que vamos estabelecer a sede da nossa facção como uma casa segura para os membros de todas as facções sob um conjunto de condições. A primeira é que nenhum armamento de qualquer tipo é permitido no complexo. A segunda é que, se qualquer conflito grave apareça, seja verbal ou físico, todas as partes envolvidas serão convidadas a ir embora. A terceira é que o conflito não pode ser discutido, ainda que em particular, dentro das instalações deste complexo. E a quarta é que todos que ficarem aqui devem contribuir para o bem-estar deste meio ambiente, trabalhando. Vamos relatar isso para Franqueza, Erudição e Audácia assim que pudermos.
Seu olhar para em Tobias e em mim, e permanece lá.
— Vocês são bem-vindos a ficarem aqui, somente se puderem cumprir as nossas regras — diz ela. — Essa é a nossa decisão.
Penso na arma que escondi debaixo do colchão, e a tensão entre eu e Peter, e Tobias e Marcus, e minha boca fica seca. Não sou boa em evitar conflitos.
— Nós não vamos ser capazes de permanecer por muito tempo — eu digo a Tobias sob a minha respiração.
Um momento atrás, ele ainda estava sorrindo levemente. Agora, os cantos da sua boca desapareceram em uma carranca.
— Não, nós não vamos.

1° Capitulo - Insurgente

Eu acordo com o nome dele na minha boca.
Will.
Antes que eu abra meus olhos, eu o vejo desabar na calçada novamente.
Morto.
Pelas minhas mãos.
Tobias se agacha na minha frente, a mão no meu ombro esquerdo. O vagão treme ao longo dos trilhos, e Marcus, Peter e Caleb ficam perto da porta. Eu respiro fundo em uma tentativa de aliviar um pouco da pressão que está se formando no meu peito.
Uma hora atrás, nada do que aconteceu parecia real para mim. Agora parece.
Eu respiro mais uma vez e a pressão ainda está lá.
— Tris, vamos — diz Tobias, seus olhos procurando os meus. — Nós temos que ir.
Está muito escuro para ver onde estamos, mas se vamos sair, provavelmente estamos perto da cerca. Tobias me ajuda a me levantar e me guia em direção à porta.
Os outros pulam um por um: Peter é o primeiro, em seguida, Marcus, então Caleb. Eu pego a mão de Tobias. O vento se agita enquanto estamos de pé na borda da abertura do vagão, como uma mão empurrando-me para trás, em direção à segurança.
Mas nós nos lançamos na escuridão e caímos forte no chão. O impacto causa dor à ferida de bala no meu ombro. Mordo meu lábio para não gritar e procuro meu irmão.
— Tudo bem? — pergunto quando o vejo sentado na grama a alguns metros de distância, esfregando o joelho.
Ele acena com a cabeça. Eu o ouço fungar como se estivesse lutando contra as lágrimas, e tenho que virar.
Nós pousamos na grama perto da cerca, a vários metros de distância do caminho gasto que os caminhões da Amizade passam para entregar comida à cidade, e o portão que lhes permite sair – o portão que está fechado no momento, mantendo-nos presos aqui dentro. A cerca paira sobre nós, alta e flexível demais para subir, mas resistente demais para derrubar.
— Deveria haver guardas da Audácia aqui — diz Marcus. — Onde eles estão?
— Eles provavelmente estavam sob a simulação — Tobias fala — e estão agora... — Ele faz uma pausa. — Quem sabe onde, quem sabe o que estão fazendo?
Paramos a simulação – o peso do disco rígido no meu bolso de trás me faz lembrar – mas não paramos para ver o resultado. O que aconteceu com nossos amigos, nossos colegas, nossos líderes, nossas facções? Não há nenhuma maneira de saber.
Tobias se aproxima de uma pequena caixa de metal ao lado direito da porta e a abre, revelando um teclado.
— Vamos esperar que a Erudição não tenha mudado a combinação — diz enquanto digita uma série de números.
Ele para no oitavo, e o portão faz um clique e se abre.
— Como você sabe disso? — Caleb pergunta.
Sua voz soa grossa com emoção, tão grossa que estou surpresa que não o sufocou quando saiu.
— Eu trabalhei na sala de controle da Audácia, no monitoramento do sistema de segurança. Nós só alteramos os códigos duas vezes por ano — Tobias responde.
— Que sorte — diz Caleb. Ele dá a Tobias um olhar desconfiado.
— A sorte não tem nada a ver com isso — diz Tobias. — Só trabalhei lá porque eu queria ter certeza de que eu poderia sair.
Eu tremo. O jeito que ele fala sobre sair – é como se ele achasse que estamos presos. Eu nunca pensei sobre isso dessa forma antes, e agora parece tolo.
Caminhamos em passos pequenos, Peter embalando seu braço sangrento em seu peito – o braço em que atirei – e Marcus com a mão no ombro de Peter, mantendo-o estável. Caleb enxuga seu rosto a cada poucos segundos, e sei que ele está chorando, mas não sei como consolá-lo.
Em vez disso, assumo a liderança. Tobias está em silêncio ao meu lado, e embora ele não me toque, ele me estabiliza.



Pontinhos de luz são o primeiro sinal de que estamos nos aproximando da sede da Amizade. Então quadrados de luz que se transformam em janelas brilhantes. Um conjunto de edifícios de madeira e vidro.
Antes que possamos alcançá-los, temos de andar através de um pomar. Meus pés afundam no chão, e acima de mim os ramos crescem e se misturam, formando uma espécie de túnel. Frutas escuras pairam entre as folhas, prontas para cair. O cheiro forte e doce de maçãs podres se mistura com o cheiro de terra molhada em meu nariz.
Quando nos aproximamos, Marcus deixa Peter de lado e vai em frente.
— Eu sei para onde ir — ele fala.
Ele nos conduz passando do primeiro edifício até o segundo à esquerda. Todos os prédios, exceto as estufas, são feitas da mesma madeira escura, sem pintura, áspera. Ouço o riso através de uma janela aberta. O contraste entre o riso e o silêncio de pedra dentro de mim é chocante.
Marcus abre uma das portas. Eu ficaria chocada com a falta de segurança se não estivéssemos na sede da Amizade. Eles muitas vezes se equilibram na linha entre a confiança e a estupidez.
Neste edifício, o único som é de nossos sapatos rangendo. Eu não ouço mais Caleb chorando, mas também, ele estava silencioso antes.
Marcus para diante de um espaço aberto onde Johanna Reyes, representante da Amizade, senta-se, olhando pela janela. Eu a reconheço porque é difícil esquecer o rosto de Johanna, se você já viu uma ou mil vezes. Uma cicatriz se estende em uma linha espessa de cima da sua sobrancelha direita até os lábios, deixando-a cega de um olho e dando-lhe a língua presa quando fala. Eu só a ouvi falar uma vez, mas me lembro. Ela teria sido uma mulher bonita se não fosse por essa cicatriz.
— Oh, graças a Deus — diz ela, quando vê Marcus.
Ela anda em direção a ele com os braços abertos. Em vez de abraçá-lo, só toca nos ombros, como se se lembrasse do desgosto da Abnegação pelo contato físico casual.
— Os outros membros de sua facção chegaram aqui há poucas horas, mas eles não tinham certeza se você tinha conseguido — ela revela.
Ela está se referindo ao grupo da Abnegação que estava com meu pai e Marcus na casa segura. Ela olha por cima do ombro de Marcus, primeiro para Tobias e Caleb, então para mim, depois para Peter.
— Oh nossa — diz ela, com os olhos persistentes no sangue manchando a camisa de Peter. — Vou chamar um médico. Posso conceder-lhe toda a permissão para passar a noite, mas amanhã, a nossa comunidade tem de decidir em conjunto. E... — ela olha para Tobias e eu — eles provavelmente não vão estar entusiasmados com a presença do Audácia em nosso complexo. Eu, claro, peço que entreguem todas as armas que vocês têm.
Pergunto-me, de repente, como ela sabe que sou da Audácia. Ainda estou usando uma camisa cinza. A camisa de meu pai.
Naquele momento, o cheiro dele, que é uma mistura igual de sabão e suor, sobe e enche meu nariz, enche minha cabeça inteira com ele. Aperto as mãos em punhos tão forte que minhas unhas cortam minha pele. Não aqui. Não aqui.
Tobias põe as mãos sobre sua arma, mas quando coloco as mãos para trás para tirar minha própria arma escondida, ele pega a minha mão, guiando-a para longe da arma. Então cobre seus dedos com os meus para encobrir o que fez.
Sei que é inteligente manter uma das nossas armas. Mas teria sido um alívio entregá-las.
— Meu nome é Johanna Reyes — diz ela, estendendo a mão para mim, e depois para Tobias.
Uma saudação da Audácia. Fico impressionada com a sua consciência dos costumes de outras facções. Sempre esqueço como a Amizade é até eu ver por mim mesma.
— Este é T... — começa Marcus, mas Tobias o interrompe.
— Meu nome é Quatro — diz ele. — Esta é Tris, Caleb e Peter.
Há alguns dias, Tobias era um nome que apenas eu conhecia, entre os Audaciosos; era o pedaço de si mesmo que ele me deu. Fora da sede Audácia, me lembro de por que ele escondeu o nome do mundo. É o que liga Marcus a ele.
— Bem-vindos ao complexo da Amizade — os olhos de Johanna fixam no meu rosto, e ela sorri torto. — Deixem-nos cuidar de você.



Nós deixamos. Uma enfermeira da Amizade me dá uma pomada – desenvolvida pela Erudição – para acelerar a cicatrização para colocar no meu ombro, e então leva Peter à enfermaria do hospital para curar seu braço.
Johanna leva-nos para o refeitório, onde encontramos alguns da Abnegação que estavam na casa segura, com Caleb e meu pai. Susan está lá, e alguns de nossos antigos vizinhos nas fileiras de mesas de madeira. Eles nos cumprimentam – especialmente a Marcus – com lágrimas e sorrisos suprimidos.
Eu me apego ao braço de Tobias. Cedo sob o peso dos membros da facção dos meus pais, suas vidas, suas lágrimas.
Um membro da Abnegação coloca um copo de líquido fumegante debaixo do meu nariz e diz:
— Beba isso. Irá ajudá-la a dormir, como ajudou alguns dos outros a dormirem. Sem sonhos.
O líquido é rosa avermelhado, como morangos. Pego o copo e bebo rápido. Por alguns segundos, o calor do líquido me faz sentir como se estivesse cheia de algo novo. E quando dreno as últimas gotas do copo, sinto-me relaxar. Alguém me leva para o corredor, para um quarto com uma cama dentro. Isso é tudo.