terça-feira, 17 de junho de 2014

36° Capitulo - Divergente



Três soldados integrantes da Audácia me perseguem. Eles correm em uníssono, seus passos ecoando no beco. Um deles dispara e eu mergulho, raspando as palmas das mãos no chão. A bala atinge a parede de tijolos à minha direita, e pedaços de tijolo pulverizam em toda parte. Eu me jogo em um canto e coloco uma bala na câmara de minha arma.
Eles mataram minha mãe. Aponto a arma para o beco e disparo às cegas. Não foram realmente eles, mas isso não importa, não pode importar, e, assim como a própria morte, não pode ser real agora.
Apenas um conjunto de passos agora. Eu seguro a arma com ambas as mãos e fico no final do beco, apontando para o soldado da Audácia. Meu dedo aperta o gatilho, mas não dura o suficiente para disparar. O homem correndo em minha direção não é um homem, ele é um menino. O menino cabeludo com um vinco entre as sobrancelhas.
Will. Olhos sem brilho e estúpidos, mas ainda Will. Ele para de correr e me imita, com os pés plantados e sua arma para cima. Em um instante, eu vejo o dedo pousado sobre o gatilho e ouço a bala deslizar para dentro da câmara, e disparo. Meus olhos espremidos, fechados. Não posso respirar.
A bala atingiu-o na cabeça. Eu sei porque é onde apontei.
Me viro sem abrir os olhos e saio do beco. North e Fairfield. Tenho de olhar para a placa da rua para ver onde estou, mas não posso lê-lo, minha visão está borrada. Eu pisco algumas vezes. Estou a poucos metros de distância do edifício que contém o que sobrou da minha família.
Eu me ajoelho ao lado da porta. Tobias me chamaria de imprudente por fazer qualquer barulho. Barulho pode atrair os soldados da Audácia.
Aperto minha testa na parede e grito. Depois de alguns segundos, aperto a mão na boca para abafar o som e grito de novo, um grito que se transforma em um soluço. A arma cai no chão. Eu ainda vejo Will.
Ele sorri na minha memória. Um lábio ondulado. Dentes retos. Luz em seus olhos. Rindo, provocando, mais vivo na memória do que eu na realidade. Era ele ou eu, escolhi a mim, mas me sinto morta também.



Bato na porta – duas vezes, depois três e em seguida seis vezes, como minha mãe me disse para fazer.
Enxugo as lágrimas do meu rosto. Esta é a primeira vez que vou ver o meu pai desde que o deixei, e não quero que ele me veja meio abalada e soluçante.
A porta se abre e Caleb aparece. A visão dele me espanta. Ele me olha por alguns segundos e depois joga os braços à minha volta, sua mão pressionando o ferimento no ombro. Mordo meu lábio para não gritar, mas um gemido escapa, de qualquer maneira, e Caleb se afasta.
— Beatrice. Oh Deus, você levou um tiro?
— Vamos entrar — eu digo fracamente.
Ele arrasta seu polegar sob os olhos, captura a umidade. A porta fecha atrás de nós.
O quarto está mal iluminado, mas vejo rostos familiares, vizinhos, colegas de turma e ex-colegas de trabalho de meu pai. Meu pai, que olha para mim como se tivesse crescido uma segunda cabeça em mim. Marcus. A visão dele me faz ter dor de cabeça. Tobias...
Não. Eu não vou fazer isso, não vou pensar nele.
— Como você soube desse lugar? — Caleb diz. — Mamãe encontrou você?
Eu concordo. Não quero pensar sobre mamãe também.
— Meu ombro — digo.
Agora que estou segura, a adrenalina que me trouxe aqui está desaparecendo, e a dor piora. Caio de joelhos. A água escorre de minhas roupas no chão de cimento. O soluço sobe dentro de mim, desesperado por libertação, e eu o sufoco.
Uma mulher chamada Tessa, que morava na mesma rua que nós, desenrola uma esteira. Ela era casada com um membro do conselho, mas não o vejo aqui. Ele provavelmente está morto.
Alguém traz uma lâmpada de um canto para o outro, então temos luz. Caleb aparece com um kit de primeiros socorros, e Susan me traz uma garrafa de água. Não há lugar melhor para precisar de ajuda do que uma sala cheia de membros da Abnegação. Olho para Caleb. Ele está vestindo cinza novamente. Vê-lo no quartel-general da Erudição parece um sonho agora.
Meu pai vem a mim, passa meu braço sobre seus ombros e me ajuda a andar pelo lugar.
— Por que você está molhada? — Caleb pergunta.
— Eles tentaram me afogar — eu digo. — Por que você está aqui?
— Fiz o que você disse – o que a mamãe disse. Pesquisei o soro da simulação e descobri que Jeanine estava trabalhando para desenvolver transmissores de longo alcance para o soro de modo que seu sinal pudesse durar mais, o que me levou a informações sobre Erudição e Audácia... De qualquer maneira, eu saí da iniciação quando descobri o que estava acontecendo. Eu teria te avisado, mas já era tarde demais. Estou sem facção agora.
— Não, você não está — meu pai diz com firmeza. — Você está com a gente.
Eu me ajoelho na esteira e Caleb corta um pedaço do ombro da minha camisa com um par de tesouras médicas. Caleb descasca o quadrado de tecido, revelando primeiro a tatuagem da Abnegação no meu ombro direito e, segundo, os três pássaros na minha clavícula. Caleb e meu pai olham para ambas as tatuagens com o mesmo olhar de fascínio e choque, mas não dizem nada sobre elas.
Deito de bruços. Caleb aperta minha mão enquanto meu pai pega o antisséptico do kit de primeiros socorros.
— Você já tirou uma bala de alguém antes? — pergunto, uma risada trêmula na minha voz.
— As coisas que eu sei fazer podem surpreendê-la — ele responde.
Um monte de coisas sobre os meus pais podem me surpreender. Eu penso na tatuagem da mamãe e mordo meu lábio.
— Isso vai doer — diz ele.
Não vejo a faca entrar, mas sinto. A dor se espalha pelo meu corpo e eu grito rangendo os dentes, esmagando a mão de Caleb. Por cima dos gritos, ouço meu pai me pedir para relaxar minhas costas. Lágrimas correm dos cantos dos meus olhos e faço como ele me diz. A dor começa de novo, e sinto a faca movendo debaixo da minha pele, e ainda estou gritando.
— Peguei — diz ele.
Ele deixa cair algo no chão com um ding.
Caleb olha para o meu pai e depois para mim, e depois ri. Não o ouço rir há tanto tempo que o som disso me faz chorar.
— O que há de tão engraçado? — pergunto, fungando.
— Nunca pensei que nos veria juntos novamente — ele responde.
Meu pai limpa a pele ao redor da minha ferida com algo frio.
— Hora de costurar.
Concordo com a cabeça. Ele enfia a agulha como se tivesse feito isso milhares de vezes.
— Um — diz ele — dois... três.
Eu aperto minha mandíbula e fico quieta dessa vez. De toda a dor que sofri hoje – a dor de levar um tiro e quase me afogar, retirar a bala, a dor de encontrar e perder minha mãe e Tobias, esta é a mais fácil de suportar.
Meu pai acaba de costurar minha ferida, amarra e cobre os pontos com uma bandagem. Caleb me ajuda a sentar e separa as bainhas de suas duas camisas, puxando a de manga comprida por cima da cabeça e oferecendo-a para mim.
Meu pai me ajuda a guiar o meu braço direito na manga da camisa, e eu puxo o resto sobre a minha cabeça. É folgado e tem um cheiro fresco, cheira a Caleb.
— Então — meu pai diz calmamente. — Onde está sua mãe?
Eu olho para baixo. Não quero entregar esta notícia. Não quero ter essa notícia para começar.
— Ela se foi — eu digo. — Ela me salvou.
Caleb fecha os olhos e respira fundo.
Meu pai parece momentaneamente ferido e, em seguida, recupera-se, evitando seus olhos brilhantes e balançando a cabeça.
— Isso é bom — diz ele, soando forçado. — Uma boa morte.
Se eu falar agora, vou quebrar, e não posso dar ao luxo de fazer isso. Então, eu só aceno.
Eric chamou o suicídio de Al de corajoso, e ele estava errado. A morte da minha mãe foi corajosa. Eu lembro como ela era calma, tão determinada. Não é apenas corajoso que ela tenha morrido por mim: é corajoso que ela fez isso sem anunciar, sem hesitação e sem parecer considerar outra opção.
Ele me ajuda a ficar de pé. Hora de enfrentar o resto da sala. Minha mãe me disse para salvá-los. Por isso, e porque eu sou Audaciosa, é meu dever liderar agora. Eu não tenho ideia de como carregar esse fardo.
Marcus se levanta. A visão dele chicoteando meu braço com um cinto corre em minha mente quando o vejo, e meu peito aperta.
— Estamos seguros aqui apenas por um tempo — Marcus fala eventualmente. — Precisamos sair da cidade. A nossa melhor opção é ir para o território da Amizade, na esperança de que eles nos deixarão entrar. Você sabe alguma coisa sobre a estratégia da Audácia, Beatrice? Será que eles vão parar de lutar à noite?
— Não é estratégia da Audácia — respondo. — Essa coisa toda é idealizada pela Erudição. E não é como se eles estivessem dando ordens.
— Não dão ordens — meu pai repete. — O que você quer dizer?
— Quero dizer que noventa por cento da Audácia são sonâmbulos agora. Eles estão em uma simulação e não sabem o que estão fazendo. A única razão de eu não estar como eles é que eu sou... — eu hesito sobre a palavra. — O controle da mente não me afeta.
— O controle da mente? Então eles não sabem que estão matando as pessoas agora? — meu pai me pergunta, os olhos arregalados.
— Não.
— Isso é... terrível — Marcus balança a cabeça. Seu tom simpático soa fabricado para mim. — Acordar e descobrir o que você fez...
A sala fica em silêncio, provavelmente com todos da Abnegação imaginando-se no lugar dos soldados da Audácia, e é aí que me ocorre.
— Nós temos que despertá-los — eu digo.
— O quê? — Marcus diz.
— Se nós os acordamos, eles provavelmente vão se revoltar quando perceberem o que está acontecendo — explico. — A Erudição não terá um exército. A Abnegação vai parar de morrer. Isso vai acabar.
— Não vai ser assim tão simples — diz meu pai. — Mesmo sem a Audácia para ajudá-los, a Erudição encontrará outra maneira de...
— E como é que vamos acordá-los? — Marcus pergunta.
— Nós encontramos os computadores que controlam a simulação e destruímos os dados — respondo. — O programa. Tudo.
— É mais fácil falar do que fazer — diz Caleb. — Poderia estar em qualquer lugar. Não podemos simplesmente aparecer no território da Erudição e começar a bisbilhotar por aí.
— É... — eu franzo a testa.
Jeanine. Jeanine estava falando sobre algo importante quando Tobias e eu entramos em seu escritório, importante o suficiente para desligar na cara de alguém. Você não pode apenas deixá-lo indefeso. E então, quando ela estava enviando Tobias longe: Mande-o para o sala de controle. A sala de controle onde Tobias costumava trabalhar. Com os monitores de segurança da Audácia. E os computadores da Audácia.
— É na sede da Audácia — falo. — Faz sentido. É onde todos os dados sobre a Audácia estão armazenados, então porque não controlá-los de lá?
Eu vagamente registro que disse –los. Eles. Desde ontem, tornei-me tecnicamente da Audácia, mas não me sinto como uma. E não sou da Abnegação também.
Acho que sou o que eu sempre fui. Não Audácia, não Abnegação, não sem facção. Divergente.
— Você tem certeza? — meu pai pergunta.
— É um palpite informado — eu digo — e é a melhor teoria que tenho.
— Então nós vamos ter que decidir quem vai e quem segue para a Amizade — diz ele. — Que tipo de ajuda você precisa, Beatrice?
A pergunta me espanta, assim como a expressão que ele usa. Ele olha para mim como se eu fosse igual. Fala comigo como se eu fosse igual. Ou ele aceitou que sou adulta agora, ou aceitou que eu não sou mais sua filha. O último é mais provável, e mais doloroso.
— Qualquer um que pode e irá disparar uma arma — respondo — e não tenha medo de altura.

35° Capitulo - Divergente

Acordo na escuridão, apertada em um canto rígido. O chão abaixo de mim é suave e frio. Toco minha cabeça latejante e um líquido escorre por meus dedos. Vermelho. Sangue. Quando trago minha mão para baixo, meu cotovelo atinge a parede. Onde estou?
Uma luz pisca em cima de mim. A lâmpada é azul e fraca quando ilumina. Vejo as paredes de um tanque em torno de mim e minha sombra refletindo à frente. A sala é pequena com paredes de concreto e sem janelas, e estou sozinha nela. Bem, quase – uma pequena câmera de vídeo está acoplada a uma das paredes de concreto.
Vejo uma pequena abertura perto dos meus pés. Conectado a um tubo, no canto da sala, há um enorme tanque.
Um tremor começa nas pontas dos meus dedos e se espalha para meus braços e logo meu corpo está estremecendo.
Não estou em uma simulação desta vez.
Meu braço direito está dormente. Quando me puxo para fora do canto, vejo uma poça de sangue onde eu estava sentada. Eu não posso entrar em pânico agora. Fico de pé, encostada a uma parede, e respiro. A pior coisa que pode me acontecer agora é que eu me afogue nesse tanque. Aperto minha testa no vidro e sorrio. Essa é a pior coisa que eu posso imaginar. Meu riso se transforma em um soluço.
Se me recusar a desistir agora, vai parecer corajoso para quem me olha com essa câmera, mas às vezes não é lutar que é ser corajosa, mas encarar a morte que você sabe que está chegando. Eu soluço dentro dos vidros. Eu não tenho medo de morrer, mas quero morrer de maneira diferente, de outra maneira.
É melhor gritar do que chorar, então grito e bato com o calcanhar na parede atrás de mim. Meu pé rebate, e eu chuto novamente, tão forte que pulsa o meu calcanhar. Eu chuto uma e outra vez e, novamente, em seguida, puxo para trás e jogo o meu ombro esquerdo na parede. O impacto faz a ferida no meu ombro direito queimar como se estivesse preso com um ferro quente.
Escorre água para dentro do fundo do tanque.
A câmera de vídeo significa que eles estão me observando, não, me estudando, como apenas a Erudição faria. Para ver se a minha reação na realidade corresponde à minha reação na simulação. Para provar que eu sou covarde.
Eu desfaço meus punhos e relaxo minhas mãos. Eu não sou covarde. Ergo minha cabeça e olho para a câmera na minha frente. Se eu me concentrar em respirar, posso esquecer que estou prestes a morrer. Olho para a câmera até a minha visão estreitar e é tudo que eu vejo. Água acaricia meus tornozelos, em seguida, minhas panturrilhas, em seguida, minhas coxas. Ela se levanta sobre meus dedos. Eu inspiro, eu expiro. A água é macia e parece como seda.
Inspiro. A água vai lavar as minhas feridas. Expiro. Minha mãe me submergiu na água quando eu era um bebê para me dar a Deus. Faz um longo período de tempo desde que eu pensei sobre Deus, mas penso sobre Ele agora. É apenas natural. Estou contente, de repente, que atirei no pé de Eric ao invés da cabeça.
Meu corpo se eleva com a água. Em vez de chutar, meus pés para ficam a par dela, eu empurro todo o ar para meus pulmões e afundo. A água abafa meus ouvidos. Sinto a movimentação sobre o meu rosto. Penso aspirar água em meus pulmões para que ela me mate mais rápido, mas não posso me obrigar a fazer isso. Sopro bolhas da minha boca.
Relaxe. Fecho meus olhos. Meus pulmões queimam.
Deixo minhas mãos flutuarem até o topo do tanque. Deixo a água me dobrar em seus braços de seda.
Quando eu era jovem, meu pai costumava me carregar em seus ombros e correr comigo, eu sentia como se estivesse voando. Lembro como o ar se deslizava sobre meu corpo, e não tenho medo. Abro os olhos.
Uma figura escura está de pé na minha frente. Eu devo estar bem perto da morte, se estou vendo coisas. Dor apunhala meus pulmões. Sufocar é doloroso. Uma palma pressiona o vidro em frente do meu rosto, e por um momento que encaro a figura através da água, penso ver o rosto borrado de minha mãe.
Ouço um bang, e o vidro quebra. Água espirra de um buraco perto do topo do tanque e o painel racha pela metade. Me viro quando o vidro quebra e a força da água joga meu corpo no chão. Engasgo, engolindo água bem como ar e tusso, engasgo de novo, e mãos se fecham nos meus braços e eu ouço a voz dela.
— Beatrice — ela diz —  Beatrice, nós temos que correr.
Ela passa meu braço sobre seus ombros e me puxa para ficar de pé. Ela está vestida como minha mãe, se parece com a minha mãe, mas está segurando uma arma e o olhar de determinação não é familiar para mim. Tropeço atrás dela pelos vidros quebrados e a água que saiu por uma porta aberta. Os guardas da Audácia estão mortos perto da porta.
Meus pés escorregam e deslizam sobre o azulejo conforme vamos andando corredor abaixo, tão rápido quanto minhas fracas pernas aguentam. Quando viramos a esquina, ela dispara nos dois guardas que estão no final. A bala os atinge na cabeça, e eles caem no chão. Ela me empurra contra a parede e tira a jaqueta cinza dela. Ela veste uma camisa sem mangas. Quando levanta o braço, vejo o canto de uma tatuagem sob sua axila. Não me admira que ela nunca tenha mudado de roupa na minha frente.
— Mãe — eu digo, a minha voz tensa. — Você era da Audácia.
— Sim — ela confirma, sorrindo. Ela faz de sua jaqueta uma tipoia para o meu braço, amarra as mangas em torno do meu pescoço. — E isso me serviu bem hoje. Seu pai, Caleb e alguns outros estão escondidos em um porão no cruzamento da North e Fairfield. Nós temos que ir buscá-los.
Olho para ela. Eu me sentei ao lado dela na mesa da cozinha, duas vezes por dia, durante dezesseis anos, e nunca sequer considerei a possibilidade de que ela poderia ter sido qualquer coisa, menos Abnegação de nascimento. Quão bem eu realmente conheço minha mãe?
— Não haverá tempo para perguntas — diz ela. Ela levanta a blusa e tira uma arma do cós da calça, oferece-a a mim. Em seguida, ela toca minha bochecha. — Agora temos de ir.
Ela vai até o final do corredor e eu corro atrás dela.



Nós estamos no porão da sede da Abnegação. Minha mãe trabalhou lá durante muito tempo pelo que me lembro, por isso não estou surpresa quando ela me leva para baixo, por alguns corredores escuros, até uma escadaria úmida, e à luz do dia novamente, sem interferência. Em quantos guardas da Audácia ela atirou antes de me achar?
— Como você sabia onde me encontrar?
— Estive observando os trens desde que os ataques começaram — ela responde, olhando por cima de seu ombro para mim. — Eu não sabia o que faria quando encontrasse você. Mas foi sempre a minha intenção salvá-la.
Minha garganta está apertada.
— Mas eu te traí. Eu te deixei.
— Você é minha filha. Eu não me importo com as facções — ela balança a cabeça. — Olhe onde elas nos levaram. Os seres humanos, de um modo geral, não podem ser bons por muito tempo antes do mal rastejar de volta e envenenar-nos outra vez.
Ela para onde o beco cruza com a estrada.
Sei que agora não é o momento para uma conversa. Mas há algo que preciso saber.
— Mãe, como você sabe sobre Divergência? — pergunto. — O que é isso? Por que...
Ela empurra a câmara da arma aberta e olha dentro. Vendo quantas balas ainda tem. Em seguida, pega algumas balas no bolso e recarrega. Reconheço sua expressão como aquela que ela usa para colocar a linha na agulha.
— Eu sei sobre isso porque sou uma — ela diz enquanto enfia uma bala no lugar. — Eu fui salva apenas porque minha mãe era uma líder da Audácia. No dia de escolher, ela me disse para deixar minha facção e encontrar a mais segura. Eu escolhi Abnegação — ela coloca uma bala extra no bolso e se levanta ereta. — Mas eu queria que você escolhesse por conta própria.
— Não entendo por que somos uma ameaça para os líderes.
— Cada facção conduz seus membros a pensar e agir de certa forma. E a maioria das pessoas faz isso. Para a maioria, não é difícil de aprender, de encontrar um padrão de pensamento que funcione e continue assim — ela toca meu ombro lesionado e sorri. — Mas nossas mentes se movem em uma dúzia de direções. Não podemos ser confinados a uma só maneira de pensar e isso apavora os líderes. O que significa que não podemos ser controlados. E isso significa que não importa o que eles façam, nós sempre causaremos problemas para eles.
Sinto como respirar novos ares. Eu não sou Abnegação. Não sou Audácia.
Eu sou Divergente.
E não posso ser controlada.
— Aqui vêm eles — diz ela, olhando em volta da esquina.
Espreito por cima do ombro e vejo alguns integrantes da Audácia com armas, movendo-se na mesma batida, em nossa direção. Minha mãe olha para trás. Lá trás, outro grupo da Audácia corre pelo beco para nós, movendo-se juntos.
Ela pega as minhas mãos e me olha nos olhos. Eu assisto os cílios longos se moverem enquanto ela pisca. Gostaria de me parecer com ela fisicamente. Mas pelo menos eu tenho alguma coisa dela no meu cérebro.
— Vá para o seu pai e irmão. O beco à direita até o porão. Bata duas vezes, depois três vezes e em seguida seis vezes — ela toca minhas bochechas. Suas mãos estão frias, suas palmas das mãos são ásperas. — Eu vou distraí-los. Você tem que correr o mais rápido que puder.
— Não — balanço a cabeça. — Eu não vou a lugar nenhum sem você.
Ela sorri.
— Seja corajosa, Beatrice. Eu te amo.
Eu sinto os lábios na minha testa e, em seguida, ela corre para o meio da rua. Ergue a arma acima da cabeça e dispara três vezes no ar. A Audácia começa a correr.
Corro pela rua até o beco. Enquanto corro, olho por cima do ombro para ver se alguém está me seguindo. Mas minha mãe dispara na multidão de guardas, e eles estão muito focados nela para me notarem.
Olho para trás quando os escuto atirar de volta. Meus pés vacilam e param.
Minha mãe endurece, suas costas arqueadas. Sangue surge de um ferimento em seu abdômen, tinge a camisa de vermelho. Uma mancha de sangue se espalha por cima do ombro. Pisco, e violentas manchas vermelhas estão dentro das minhas pálpebras. Pisco novamente e vejo seu sorriso, enquanto ela enfeita meus cabelos.
Ela cai, primeiro de joelhos, as mãos frouxas ao seu lado, e depois direto para o pavimento, caiu como uma boneca de pano. Está imóvel e sem respiração.
Aperto a mão na boca e grito em minha palma. Minhas bochechas estão quentes e molhadas com lágrimas que eu não senti começarem. Meu sangue grita que pertenço a ela e luta para voltar para ela, e ouço as palavras dela em minha mente enquanto corria, me dizendo para ser corajosa.
Dor apunhala através de mim como se fosse feita de colapsos, o meu mundo inteiro desmontado em um momento. O pavimento raspa meus joelhos. Se eu deitar agora, isso tudo pode terminar. Talvez Eric estivesse certo, e escolher a morte é como explorar o desconhecido, o lugar incerto.
Sinto Tobias escovando meu cabelo para trás antes da primeira simulação. Ouço-o me dizendo para ser corajosa. Ouço minha mãe me dizendo para ser corajosa.
Os soldados da Audácia viram como se movidos pelo mesmo espírito. De alguma forma, me levanto e começo a correr.
Eu sou corajosa.

34° Capitulo - Divergente

Apoio-me pesadamente em Tobias. O cano de uma arma pressionada contra minhas costas me impulsiona para frente, através das portas de entrada do quartel general da Abnegação, um prédio cinza liso, de dois andares. Sangue escorre pelo lado do meu corpo. Não estou com medo do que virá; sinto muita dor para sequer pensar nisso.
O cano da arma me empurra em direção a uma porta guardada por dois soldados da Audácia. Tobias e eu passamos por ela e entramos em um escritório simples que contém apenas uma mesa, um computador e duas cadeiras vazias. Jeanine está sentada atrás da mesa, um telefone no ouvido.
— Bem, então mande alguns deles de volta no trem — ela diz. — Ele precisa ser bem guardado, é a parte mais importante – eu não vou falar – preciso desligar agora.
Ela desliga o telefone e concentra seus olhos cinzentos em mim. Seus olhos me lembram aço derretido.
— Rebeldes Divergentes — um dos soldados diz.
Ele deve ser um dos líderes Audácia ou um recruta que foi tirado da simulação.
— Sim, eu consigo ver isso.
Ela tira os óculos e os coloca em cima da mesa. Ela provavelmente os usa mais por vaidade do que por necessidade, porque deve achar que eles a fazem parecer mais inteligente – meu pai disse isso uma vez.
— Você — ela diz, apontando para mim. — Eu esperava. Todos os problemas com o resultado do seu teste de aptidão levantou suspeitas. Mas você... — ela diz balançando a cabeça enquanto olha para Tobias. — Você, Tobias, ou devo chamá-lo de Quatro? Conseguiu me iludir — ela fala baixinho. — Tudo sobre você estava certo: resultado dos testes, simulações de iniciação, tudo. Mas, contudo, aqui está você — ela cruza as mãos apoiando o queixo sobre elas. — Talvez você possa me explicar como isso é possível?
— Você é o gênio — ele diz friamente. — Por que você não me explica?
A boca de Jeanine se curva em um sorriso.
— Minha teoria é de que você realmente pertence à Abnegação. Que sua divergência é fraca.
Seu sorriso se torna mais amplo. Como se ela estivesse se divertindo. Cerro meus dentes e considero me lançar sobre a mesa e estrangulá-la. Se eu não tivesse uma bala no ombro, eu faria isso.
— Sua capacidade de raciocínio dedutivo é assombrosa — cospe Tobias. — Considere-me impressionado.
Olho para ele. Quase me esqueci desse lado dele – a parte que é mais suscetível a explodir do que a deitar e morrer.
— Agora que sua inteligência foi comprovada, você deve querer prosseguir com isso de nos matar — Tobias fecha os olhos. — Você tem muitos líderes da Abnegação para matar.
Se o comentário de Tobias incomoda Jeanine, ela não demonstra. Ela continua sorrindo e representando bem. Ela veste um vestido azul que cobre seu corpo dos ombros até os joelhos, revelando uma camada de gordura em sua cintura. A sala gira enquanto eu tento focalizar seu rosto, e me apoio em Tobias em busca de apoio. Ele desliza seu braço ao meu redor, me segurando pela cintura.
— Não seja bobo. Não tem por que ter pressa — ela diz levemente. — Vocês dois estão aqui para um propósito extremamente importante. Veja só, me deixa perplexa que Divergentes sejam imunes ao soro que desenvolvi, então tenho trabalhado para corrigir isso. Pensei que teria conseguido com o último lote, mas como vocês sabem, eu estava errada. Por sorte, tenho outro lote para testar.
— Por que se preocupar?
Ela e os líderes Audácia não tiveram nenhum problema em matar Divergentes no passado. Por que agora isso seria diferente?
Ela sorri para mim.
— Tenho me feito a mesma pergunta desde que o projeto da Audácia começou... — Ela dá um passo para o lado, deslizando seus dedos sobre a mesa. — Por que a maioria dos Divergentes são os de vontade fraca, tementes a Deus da Abnegação, de todas as facções?
Eu não sabia que a maioria dos Divergentes vinha da Abnegação, e eu não sei por que isso acontece. E provavelmente não viverei o bastante para descobrir.
— De vontade fraca — Tobias zomba. — É preciso uma força de vontade muito grande para manipular as simulações, pelo menos da última vez que chequei. Fraqueza é ter que controlar as mentes de um exército porque é muito difícil para você treinar um.
— Eu não sou tola — Jeanine diz. — Uma facção de intelectuais não é um exército. Nós estamos cansados de ser dominados por um monte de hipócritas que rejeitam todo tipo de riqueza e avanço, mas não poderíamos fazer nada por nós mesmos. E seus membros da Audácia ficaram todos mais do que felizes em me apoiar contanto que eu garantisse a eles um lugar em nosso novo e melhorado governo.
— Melhorado — Tobias ecoa, bufando.
— Sim, melhorado — Jeanine diz. — Melhorado e trabalhando em direção a um mundo em que cada um poderá viver com riquezas, conforto e prosperidade.
— A que custo? — pergunto. Minha voz fraca e lenta. — Toda essa riqueza... não vem de lugar nenhum.
— Atualmente, os sem facção representam um buraco nos nossos recursos — Jeanine responde. — Assim como a Abnegação. Tenho certeza de que assim que os últimos da sua antiga facção forem incorporados ao exército da Audácia, Franqueza irá cooperar e nós finalmente seremos capazes de arrumar as coisas.
Incorporados ao exército da Audácia. Eu sei o que isso quer dizer – ela quer controlá-los também. Quer que todos sejam flexíveis e fáceis de controlar.
— Arrumar as coisas — Tobias repete amargamente. — Não se engane. Você estará morta antes que o dia acabe, você...
— Talvez se você fosse capaz de controlar seu temperamento — Jeanine diz, suas palavras cortando Tobias — não estaria nessa situação, Tobias.
— Eu estou nessa situação porque você me colocou nela — ele atira. — No segundo em que orquestrou um ataque contra pessoas inocentes.
— Pessoas inocentes — Jeanine ri. — Acho isso um pouco engraçado, vindo de você. Eu esperaria que o filho de Marcus entendesse que nem todas as pessoas são inocentes — ela se empoleira na borda da mesa, sua saia subindo e revelando seus joelhos, que eram marcados por cicatrizes. — Você pode me dizer honestamente que não ficaria feliz em saber que seu pai foi morto no ataque?
— Não — Tobias diz entre dentes. — Mas ao menos a maldade dele não envolvia manipular toda uma facção e sistematicamente matar cada líder político que temos.
Eles se encaram por alguns segundos, tempo o bastante para me deixar tensa, e então Jeanine limpa sua garganta.
— O que eu estava dizendo, é que em breve será incumbida a mim a tarefa de manter sob controle dúzias de adultos e crianças da Abnegação, e não é bom para mim que grande parte deles possa ser Divergente como vocês, incapazes de serem controlados pela simulação.
Ela fica de pé e caminha alguns passos para esquerda, suas mãos cruzadas em frente a ela. Suas unhas, como as minhas, roídas.
— Portanto, é preciso desenvolver uma nova forma de simulação a qual eles não sejam imunes. Tenho sido forçada a reavaliar minhas próprias suposições. E é aqui que vocês entram — ela dá alguns passos para a direita. — Você está certo em dizer que vocês têm muita força de vontade. Eu não posso controlar suas vontades. Mas existem algumas coisas que eu posso controlar.
Ela para e olha para nós. Apoio minha cabeça no ombro de Tobias. Sangue escorre pelas minhas costas. A dor tem sido tão constante nos últimos minutos que me acostumei a ela, como uma pessoa se acostumaria ao barulho de uma sirene se ele fosse persistente.
Ela pressiona as palmas das mãos juntas. Não vejo nenhuma satisfação viciosa em seus olhos, e nem uma pitada do sadismo que eu esperava. Ela é mais uma máquina do que maníaca. Ela vê problemas e formula soluções baseado nos dados que coletou. Abnegação ficou no caminho do seu desejo por poder, então ela achou uma forma de eliminá-los. Ela não tinha um exército, logo achou um na Audácia. Sabia que precisaria controlar grandes grupos de pessoas a fim de permanecer segura, então desenvolveu um meio de fazer isso com o soro e os transmissores.
Divergência é só mais um problema que ela precisa resolver, e é isso o que a faz tão aterrorizante – porque ela é esperta o bastante para resolver qualquer coisa, mesmo o problema da nossa existência.
— Eu posso controlar o que você vê e ouve — ela diz. — Então criei um novo soro que vai ajustar o seu entorno para manipular sua vontade. Aqueles que se recusam a aceitar nossa liderança devem ser monitorados de perto.
Monitorado ou ter seu livre arbítrio roubado. Ela tem um dom para palavras.
— Você vai ser a primeira cobaia, Tobias. Beatrice, entretanto... — ela sorri. — Você está muito ferida para ser útil para mim; sua execução vai acontecer assim que esta reunião for encerrada.
Tento controlar o arrepio que passa por mim com a palavra execução, meu ombro gritando de dor, e olho para Tobias. É difícil afastar as lágrimas quando vejo o terror nos olhos escuros dele.
— Não — Tobias diz. Sua voz treme, mas seu olhar é firme enquanto ele balança a cabeça. — Eu prefiro morrer.
— Temo que não tenha muita escolha — Jeanine responde tranquilamente.
Tobias segura bruscamente meu rosto entre suas mãos e me beija, a pressão de seus lábios separando os meus. Esqueço minha dor e o terror de uma morte eminente e por um momento, sou grata porque a memória desse beijo ficará fresca em minha mente enquanto encontro meu fim.
Então ele me solta e eu preciso me apoiar contra a parede em busca de suporte. Sem nenhum outro aviso além do aperto dos seus músculos, Tobias cruza a sala e envolve suas mãos na garganta de Jeanine. Os soldados da Audácia que guardavam a porta lançam-se em direção a ele, suas armas prontas, e eu grito.
São necessários dois soldados para afastar Tobias de Jeanine e empurrá-lo para o chão. Um dos soldados prende os ombros de Tobias com os joelhos enquanto suas mãos seguram a cabeça de Tobias, pressionando seu rosto contra o carpete. Invisto contra eles, mas outro guarda empurra meus ombros, me forçando contra a parede. Estou fraca devido à perda de sangue e sou muito pequena.
Jeanine se apoia contra a mesa, tossindo e ofegando. Ela massageia a garganta, que está vermelha brilhante com as marcas dos dedos de Tobias. Não importa quão mecânica ela pareça, ela ainda é humana; lágrimas cobrem seus olhos enquanto ela pega uma caixa da gaveta da mesa e a abre, revelando uma agulha e uma seringa.
Ainda respirando pesadamente, ela a carrega até Tobias. Tobias range os dentes e acerta um dos guardas no rosto com seu cotovelo. O guarda bate com o cabo de sua arma na lateral da cabeça de Tobias e Jeanine aplica a injeção em seu pescoço. Ele amolece.
Um som escapa da minha boca, não um soluço ou um grito, mas um coaxar, um gemido que soa desconexo, como se viesse de outra pessoa.
— Levantem-no — Jeanine ordena, sua voz áspera.
O guarda levanta, assim como Tobias. Ele não parece com os soldados sonâmbulos, seus olhos estão alertas. Ele olha ao redor por alguns segundos como se estivesse confuso com o que via.
— Tobias! — eu chamo. — Tobias!
— Ele não conhece você — Jeanine diz.
Tobias olha por cima do ombro. Seus olhos cerrados, e começa a vir em minha direção, rápido. Antes que os guardas possam pará-lo, ele fecha a mão ao redor da minha garganta, apertando-a com seus dedos. Eu engasgo, meu rosto quente com o sangue.
— A simulação o manipula — Jeanine diz. Mal posso ouvi-la com meus ouvidos latejando. — Alterando o que ele vê, fazendo-o confundir inimigos com amigos.
Um dos guardas afasta Tobias de mim. Eu arquejo, respirando penosamente e enchendo meus pulmões com ar.
Ele se foi. Controlado pela simulação, ele agora irá matar as pessoas que há três minutos chamava de inocentes. Se Jeanine o tivesse matado, doeria menos do que isso.
— A vantagem dessa versão da simulação — ela diz, seus olhos ardendo. — É que ele pode agir independentemente, e é, portanto, muito mais eficiente do que um soldado estúpido.
Ela olha para os guardas que seguram Tobias. Ele luta contra eles, seus músculos tensos, os olhos focados em mim, mas sem me ver, não da forma como ele costumava me ver.
— Mande-o para a sala de controle. Queremos alguém sensível para monitorar as coisas e, se não me engano, ele costumava trabalhar lá.
Jeanine pressiona suas mãos juntas em frente a ela.
— E levem ela para o quarto B13 — diz, acenando para me dispensar.
Aquele aceno ordena minha execução, mas para ela é só um item a menos em sua lista de tarefas, a única progressão lógica do caminho particular em que ela está. Ela me examina friamente enquanto dois soldados Audácia me empurram para fora da sala.
Eles me arrastam pelo corredor. Sinto-me adormecida por dentro, mas por fora eu grito, me debatendo com vigor. Mordo a mão que pertence ao homem à minha direita e sorrio quando sinto o gosto de sangue na boca. Então ele me bate e tudo some.

33° Capitulo - Divergente

Tento ficar a sós com Tobias depois que as classificações são anunciadas, mas a multidão de iniciados e membros é muito grande, e a força das suas congratulações me empurra para longe dele. Decido escapar do dormitório depois que todos estejam dormindo e ir encontrá-lo, mas a paisagem do medo me deixou mais exausta do que percebi, então eu acabo pegando no sono também.
Acordo com o barulho de colchões rangendo e pés se movendo. Ainda está muito escuro para que eu consiga ver claramente, mas enquanto meus olhos se ajustam, posso ver que Christina está amarrando os cadarços. Abro minha boca para perguntar o que ela está fazendo, mas então percebo que, do outro lado, Will está colocando a camisa. Todos estão acordados, mas em silêncio.
— Christina — eu sibilo. Ela não olha para mim, então agarro seu ombro e a sacudo. — Christina!
Ela simplesmente continua amarrando os cadarços.
Meu estômago se contrai quando eu vejo o rosto dela. Seus olhos estão abertos, mas vazios e seus músculos faciais estão frouxos. Ela se move sem olhar o que está fazendo, sua boca meio aberta, não dormindo, mas parecendo que sim. E todos os outros estão iguais a ela.
— Will? — chamo atravessando o quarto.
Todos os iniciados se organizam em fila quando terminam de se vestir. Eles começam a sair em fila do dormitório. Agarro o braço de Will para impedi-lo de sair, mas ele continua andando com força irresistível. Cerro meus dentes e o seguro o mais forte que consigo, enterrando meus calcanhares no chão. Ele simplesmente me arrasta com ele.
Eles são sonâmbulos.
Tateio em busca dos meus sapatos. Não posso ficar aqui sozinha. Calço os sapatos correndo, coloco minha jaqueta e corro para fora do quarto, alcançando rapidamente a fila de iniciados, combinando meu passo com os deles. Levo alguns segundos para perceber que eles se movem em uníssono, os mesmos pés indo para frente enquanto os mesmos braços balançam para trás. Os imito o melhor que consigo, mas seu ritmo parece estranho para mim.
Marchamos em direção ao Abismo, mas quando chegamos à entrada, a frente da fila vira para esquerda. Max está parado no corredor, nos observando. Meu coração martela dentro do meu peito e eu olho o mais vagamente possível à frente, focando minha atenção no ritmo das minhas passadas. Fico tensa quando passo por ele. Ele vai perceber. Ele vai perceber que eu não sofri lavagem cerebral como o resto deles e alguma coisa ruim vai acontecer comigo, eu sei disso.
Os olhos escuros de Max passam diretamente por mim.
Subimos um lance de escadas e continuamos no mesmo ritmo enquanto descemos por quatro corredores. E então o último deles se abre para uma enorme caverna. Dentro está uma multidão de membros da Audácia.
No interior estão várias mesas com pilhas pretas em cima delas. Não consigo identificar o que são até que esteja a poucos metros de distância delas. Armas.
Claro. Eric disse que cada membro da Audácia recebeu a injeção ontem. Então agora todos que sofreram lavagem cerebral estão obedientes e treinados para matar. Soldados perfeitos.
Pego uma arma, um coldre e um cinto, imitando Will que está diretamente a minha frente. Tento combinar meus movimentos com os dele, mas não posso prever o que ele fará, então acabo sendo mais desajeitada do que eu gostaria. Cerro meus dentes. Só preciso me convencer de que ninguém está me observando.
Uma vez armada, sigo Will e os outros em direção à saída.
Não posso entrar em guerra contra a Abnegação, contra minha família. Eu preferiria morrer. Minha paisagem do medo provou isso. Minha lista de opções diminui e eu vejo que caminho devo tomar. Vou fingir somente até chegar ao setor da Abnegação na cidade. Vou salvar minha família. E o que quer que aconteça depois disso não importa. Um véu de calma se coloca sobre mim.
A fila de iniciados passa para um corredor escuro. Não consigo ver Will à minha frente, ou qualquer coisa mais à frente. Meu pé atinge alguma coisa dura e eu tropeço, minhas mãos estendidas. Meus joelhos atingem alguma outra coisa – um degrau. Fico em pé, tão tensa que meus dentes estão quase batendo. Eles não viram isso. Está muito escuro. Por favor, deixe estar muito escuro.
Assim que a escada vira, luz flutua para dentro da caverna, até que eu finalmente consiga ver os ombros de Will na minha frente novamente. Me concentro em combinar nossos passos enquanto chego no topo das escadas, passando por outro líder da Audácia. Agora eu sei quem são os líderes porque eles são os únicos acordados.
Bom, não as únicas pessoas. Devo estar acordada porque sou Divergente. E se eu estou acordada, Tobias também está, a menos que eu esteja errada sobre ele.
Preciso encontrá-lo.
Fico parada próxima aos trilhos do trem junto a um grupo que se espalha para tão longe quanto eu consigo ver com minha visão periférica. O trem está parado na nossa frente, cada vagão aberto. Um a um, meus colegas iniciados escalam os vagões na nossa frente.
Não posso virar minha cabeça para procurar Tobias, mas posso virar meus olhos para ver quem está ao meu lado. Os rostos a minha esquerda não são familiares, mas eu vejo um garoto alto de cabelos curtos a poucos metros da minha direita. Não deve ser ele, e eu não tenho como ter certeza, mas é a melhor chance que eu tenho. Não sei como chegar até ele sem chamar atenção. Preciso chegar até ele.
O carro a minha frente fica lotado, e Will se vira em direção ao próximo. Aproveito as dicas que ele me dá, mas ao invés de parar onde ele parou, deslizo alguns metros para a direita. Todos ao meu redor são mais altos do que eu, eles vão me esconder. Dou mais um passo para a direita, cerrando os dentes. Muito movimento. Eles vão me pegar. Por favor, não me peguem.
Um membro com as expressões vazias oferece a mão para um garoto na minha frente e ele aceita, seus movimentos robóticos. Seguro a próxima mão sem olhar e pulo para o vagão o mais graciosamente que consigo.
Fico parada encarando a pessoa que me ajudou. Meus olhos se contraem por um segundo para conseguir ver seu rosto. Tobias, tão sem expressão quanto o resto deles. Eu estava errada? Ele não é Divergente? Lágrimas se formam atrás dos meus olhos, e eu pisco para mantê-las afastadas enquanto me viro para longe dele.
As pessoas se aglomeram no vagão ao meu redor, nos posicionando em quatro linhas, ombro a ombro. E então uma coisa peculiar acontece: dedos se entrelaçam aos meus e uma mão se pressiona na minha. Tobias segurando minha mão.
Todo meu corpo desperta com energia. Aperto a mão dele, e ele aperta a minha de volta. Ele está acordado. Eu estava certa.
Quero olhar para ele, mas me obrigo a continuar parada e manter meus olhos para frente enquanto o trem começa a se mover. Ele desliza seu polegar em círculos na minha mão. Sua intenção é me confortar, mas me deixa frustrada, ao invés disso. Eu preciso falar com ele. Preciso olhar para ele.
Não consigo ver para onde o trem está indo porque a garota na minha frente é muito alta, então eu encaro sua nuca e me concentro na mão de Tobias até que os trilhos guincham. Eu não sei quanto tempo fiquei parada, mas minhas costas doem, então deve ter sido por bastante tempo. O trem assovia até parar; meu coração bate tão rápido que é difícil respirar.
Logo antes de pularmos do vagão, com o canto do olho vejo Tobias virar a cabeça e olho de volta para ele. Seus olhos escuros são persistentes quando ele diz:
— Corra.
— Minha família — eu digo.
Olho diretamente para frente de novo, e pulo do vagão quando minha vez chega. Tobias anda na minha frente. Eu deveria me concentrar nas costas dele, mas as ruas são familiares agora e eu deixo de prestar atenção na fila de membros da Audácia que eu estou seguindo. Passo pelo lugar onde ia com minha mãe a cada seis meses buscar novas roupas para nossa família; o ponto do ônibus no qual uma vez eu esperava para ir à escola; o meio fio quebrado no qual Caleb e eu costumávamos brincar de saltar de pedaço em pedaço.
Eles estão completamente diferentes agora. Os prédios estão escuros e vazios. As ruas estão lotadas de soldados da Audácia, todos marchando no mesmo ritmo, exceto os oficiais, que estão parados a poucos metros uns dos outros, nos observando enquanto passamos, ou se reunindo em grupos para discutir alguma coisa. Ninguém parece fazer nada. Estamos aqui realmente para uma guerra?
Ando alguns metros antes de conseguir uma resposta à minha pergunta.
Começo a ouvir sons de alguma coisa estourando. Não posso olhar ao redor para ver de onde vem, mas quanto mais eu ando, mais alto e nítido ele fica, até que eu reconheço o som: tiros. Cerro meus dentes. Eu preciso continuar andando; tenho que olhar diretamente para frente.
Muito além de nós, eu vejo um soldado da Audácia forçando um homem vestido de cinza a ficar de joelhos. Eu o reconheço – é um membro do conselho. O soldado tira a arma do coldre e, sem piscar, atira contra a nuca do homem.
O soldado tem uma faixa cinza no cabelo. É Tori. Meu passo quase vacila.
Continue andando. Meus olhos queimam. Continue andando.
Nós marchamos até passar por Tori e pelo homem caído. Quando piso em sua mão, quase me desfaço em lágrimas.
Então os soldados à minha frente param de andar, e eu também. Permaneço o mais parada possível, mas tudo o que quero fazer é encontrar Jeanine, Eric e Max e atirar em todos eles. Minhas mãos tremem e eu não posso fazer nada para impedir. Respiro rápido através do meu nariz.
Outro tiro. Pelo canto esquerdo do meu olho, vejo um borrão azul cair contra o chão. Toda a Abnegação vai morrer se isso continuar.
Os soldados da Audácia obedecem a ordens mudas sem hesitar ou questionar. Alguns dos membros adultos da Abnegação estão sendo conduzidos em grupo em direção a um dos prédios próximos, juntamente com as crianças da Abnegação. Um mar de soldados vestidos de preto guarda as portas. As únicas pessoas que eu não vejo são os líderes da Abnegação. Talvez eles já estejam mortos.
Um por um, os soldados da Audácia que estão na minha frente se afastam para executar uma tarefa ou outra. Em breve os líderes perceberão que qualquer que seja o sinal que eles estão recebendo, eu não estou. O que eles farão quando isso acontecer?
— Isso é loucura — sussurra uma voz masculina a minha direita.
Vejo uma mecha de cabelo longo e gorduroso e um brinco prateado. Eric. Ele cutuca minha bochecha com o indicador e eu luto contra o impulso de afastar sua mão com um tapa.
— Eles realmente não conseguem nos ver? Ou nos ouvir? — uma voz feminina pergunta.
— Oh, eles podem ver e ouvir. Eles só não estão processando o que eles veem e ouvem do mesmo jeito — Eric diz. — Eles recebem comandos dos nossos computadores através dos transmissores que injetamos neles...
Com isso ele pressiona o dedo no local onde a injeção foi aplicada para mostrar a mulher onde é. Fique parada, digo a mim mesma. Parada, parada, parada.
— E os executam sem problema. Agora, essa é uma visão feliz — ele diz. — O lendário Quatro. Agora ninguém mais vai lembrar que eu fiquei em segundo lugar, vai? Ninguém vai me perguntar, Como foi treinar com o cara que só teve quatro medos? — Ele saca sua arma e aponta para a cabeça de Tobias. Meu coração bate tão forte que eu sinto minha cabeça latejar. Ele não pode atirar; ele não atiraria. Eric inclina a cabeça. — Será que alguém perceberia se ele fosse acidentalmente baleado?
— Vá em frente — a mulher diz, soando entediada. Ela deve ser uma líder da Audácia se pode dar permissão a Eric. — Ele não é nada agora.
— Que pena você não ter aceitado a oferta de Max, Quatro. Bom, que pena para você, de qualquer forma — Eric fala calmamente enquanto carrega a arma.
Meus pulmões queimam; eu não respiro há cerca de um minuto. Pelo canto do olho vejo a mão de Tobias se contorcer, mas minha mão já está na minha arma. Pressiono o cano da arma na testa de Eric. Seus olhos arregalaram-se, seu rosto fica inexpressivo e por um segundo ele parece com um dos soldados da Audácia.
Meu polegar paira sobre o gatilho.
— Tire sua arma da cabeça dele — ordeno.
— Você não vai atirar em mim — ele replica.
— Teoria interessante — respondo.
Mas não posso matá-lo. Não posso. Cerro meus dentes e abaixo meu braço, atirando no pé de Eric. Ele grita e segura o pé com ambas as mãos. No segundo em que sua arma não aponta mais para testa de Tobias, ele pega sua arma e atira na perna da amiga de Eric. Não espero para ver se a bala a acertou. Agarro o braço de Tobias e corro.
Se conseguirmos chegar até o beco, podemos desaparecer dentro dos prédios e eles não nos encontrarão. Duzentos metros de distância. Escuto passos em nossa direção, mas não olho para trás. Tobias segura minha mão e a aperta, me puxando para frente, mas rápido do que eu jamais corri, mais rápido do que consigo correr. Tropeço atrás dele. Escuto tiros.
A dor é aguda e súbita, começando no meu ombro e se espalhando com rajadas elétricas. Um grito morre na minha garganta e eu caio, minha bochecha raspando no chão. Levanto minha cabeça e vejo os joelhos de Tobias próximos ao meu rosto.
— Corra!
Sua voz é calma e baixa quando ele responde.
— Não.
Em segundos estamos cercados. Tobias me ajuda a levantar, apoiando meu peso. Tenho problemas em raciocinar através da dor. Soldados da Audácia nos cercam e apontam suas armas.
— Rebeldes Divergentes — Eric diz, parado em um pé só. Seu rosto de um branco doentio. — Entreguem suas armas.