quinta-feira, 31 de julho de 2014

4° Capitulo - A Escolha

ENTREI NO SALÃO DAS MULHERES COM O PLANO DE MAXON NA CABEÇA. A rainha ainda não havia chegado e todas as meninas riam juntas perto da janela.
— America, venha aqui! — chamou Kriss, como se fosse urgente.
Até Celeste se virou para mim com um sorriso e um gesto para que me aproximasse.
Desconfiei um pouco do que me esperava, mas me juntei ao grupo mesmo assim.
— Meu Deus! — exclamei.
— Pois é — suspirou Celeste.
Lá estava metade dos guardas do palácio, sem camisa, correndo em volta do jardim. Aspen tinha me contado que todos os guardas tomavam uma injeção para ficarem fortes, mas aparentemente eles também faziam um monte de exercícios para manter o corpo em forma.
Apesar de sermos todas leais a Maxon, não dava para ignorar tantos garotos lindos.
— O loiro… — Kriss comentou. — Bom, acho que é loiro. O cabelo está tão curto!
— Eu gosto deste aqui — cochichou Elise quando outro soldado passou pela janela.
Kriss segurou o riso.
— Não acredito que estamos fazendo isso!
— Ali, ali! Aquele cara de olhos verdes — disse Celeste, apontando para Aspen.
Kriss deixou escapar um suspiro.
— Dancei com ele no Halloween. Além de bonito, é divertido.
— Também dancei com ele — gabou-se Celeste. — O guarda mais lindo do palácio, fácil.
Tive que dar uma risadinha. Imaginei como ela se sentiria se soubesse que Aspen tinha sido um Seis antes de se tornar guarda.
Enquanto o observava correr, pensei nas centenas de vezes em que fora envolvida por aqueles braços. A distância cada vez maior entre nós parecia inevitável, mas mesmo assim me perguntava se havia uma maneira de preservar uma parte do que vivemos. E se eu precisasse dele?
— E você, America? — Kriss perguntou.
Aspen era o único que me atraía e, depois de sofrer tanto por ele, parecia idiota escolher alguém. Achei melhor me esquivar da pergunta.
— Não sei. São todos bonitinhos.
— Bonitinhos? — repetiu Celeste. — Você está de brincadeira! Estão entre os caras mais lindos que já vi.
— São só uns caras sem camisa — repliquei.
— Então aproveite a vista porque daqui a pouco só vai poder olhar para nós três aqui dentro — Celeste disse em tom grosseiro.
— Sei lá. Maxon fica tão bem sem camisa quanto qualquer um desses caras.
— O quê? — bravejou Kriss.
Só percebi o que tinha dito um segundo depois de as palavras escaparem da minha boca. As três olhavam fixamente para mim.
— Quando exatamente você e Maxon ficaram sem camisa? — Celeste quis saber.
— Eu não fiquei!
— Mas ele ficou? — Kriss perguntou. — Foi por isso que você usou aquele vestido péssimo ontem à noite?
Celeste estava em choque:
— Sua vadia!
— Como é? — gritei.
— Bom, o que você esperava? — ela emendou, cruzando os braços. — A não ser que você queira nos contar o que aconteceu e provar que estamos erradas.
O problema é que não havia como explicar o assunto. Despir Maxon não tinha sido exatamente um momento romântico, mas eu não podia contar que tinha cuidado de feridas nas costas dele causadas justamente por seu pai. Maxon guardaria esse segredo a vida inteira. Se o traísse agora, seria o fim da nossa relação.
— Celeste estava seminua com ele nos corredores! — acusei, com o dedo apontado para ela.
O queixo dela caiu.
— Como você sabe?
— Quer dizer que todo mundo já ficou sem roupa com Maxon? — Elise perguntou, horrorizada.
— Não ficamos sem roupa! — gritei.
— Chega — disse Kriss, levantando os braços. — Precisamos tirar isso a limpo. Quem fez o que com Maxon?
Todas se calaram por alguns instantes. Ninguém queria ser a primeira a falar.
— Eu o beijei — revelou Elise. — Três vezes e só.
— Eu nunca o beijei — confessou Kriss. — Mas foi escolha minha. Ele me beijaria se eu deixasse.
— Sério? Nenhuma vez? — perguntou Celeste, chocada.
— Nenhuma.
— Bom, eu o beijei várias vezes — Celeste falou, jogando o cabelo para trás, orgulhosa em vez de envergonhada. — A melhor foi naquela noite no corredor.
E, com os olhos em mim, completou:
— Ficamos cochichando sobre como era emocionante saber que podíamos ser pegos no flagra.
Então todas se viraram para mim. Lembrei das palavras do rei, quando insinuou que talvez outras garotas estivessem dispostas a ser mais atiradas do que eu. Mas eu sabia que essa era apenas mais uma de suas armas, uma tentativa de me fazer sentir insignificante. Decidi ser honesta.
— O primeiro beijo de Maxon foi comigo, não com Olivia. Eu não queria que ninguém soubesse. E depois houve outros… momentos mais íntimos. Em um deles, Maxon ficou sem camisa.
— Ficou sem camisa? Assim, num passe de mágica, ela saiu? — pressionou Celeste.
— Ele tirou — admiti.
Ainda não satisfeita, Celeste continuou a forçar a barra.
— Ele tirou ou você tirou?
— Acho que os dois.
Depois de alguns instantes tensos, Kriss retomou a palavra:
— Muito bem, agora sabemos a posição de cada uma.
— E qual é? — Elise perguntou.
Ninguém respondeu.
— Só queria dizer… — comecei — que todos esses momentos foram muito importantes para mim, e que realmente me importo com Maxon.
— Você quer dizer que a gente não se importa? — vociferou Celeste.
— Sei que você não se importa.
— Como ousa?!
— Celeste, todo mundo sabe que você quer alguém com poder. Até apostaria que você gosta um pouco dele, mas não é apaixonada. Você quer a coroa.
Sem negar, ela se voltou para Elise.
— E essa aqui? Nunca vi qualquer traço de emoção em você!
— Sou reservada. Você devia tentar de vez em quando — Elise rebateu no ato. Aquela faísca de raiva me fez gostar dela um pouco mais. — Na minha família, todos os casamentos são arranjados. Eu sabia que comigo também seria assim. Posso não estar completamente apaixonada, mas respeito Maxon. O amor pode vir depois.
Kriss falou, em tom amigável:
— Isso parece meio triste, Elise.
— Não é. Há coisas maiores do que o amor.
Todas encaramos Elise, digerindo suas palavras. Eu tinha lutado pela minha família em nome do amor e, também em nome do amor, tinha feito o mesmo por Aspen. E agora, apesar de a simples ideia me assustar, estava certa de que todas as minhas ações em relação a Maxon – mesmo as mais bobas – também eram motivadas por esse sentimento. E se houvesse algo mais importante?
— Bom, eu admito: amo Maxon — Kriss desabafou. — Amo e quero que se case comigo.
De volta à discussão, minha vontade era de derreter pelo carpete. O que eu tinha começado?
— Muito bem, America, desembuche — exigiu Celeste.
Gelei e comecei a respirar com dificuldade. Demorei um pouco para encontrar as palavras certas.
— Maxon sabe o que eu sinto, e é isso o que importa.
Ela fez uma cara de decepção, mas não me pressionou mais. Sem dúvida estava com medo de que eu fizesse o mesmo com ela.
Permanecemos lá, nos entreolhando. A Seleção já durava meses, e agora finalmente podíamos enxergar os verdadeiros objetivos de cada uma na competição. Agora todas sabíamos qual era a relação das concorrentes com Maxon – pelo menos em parte – e era possível compará-las.
A rainha chegou momentos depois e nos desejou bom-dia. Depois de cumprimentá-la com uma reverência, nos afastamos. Para os cantos do salão, para dentro de nós mesmas. Talvez tudo se resumisse a isso mesmo. Havia um príncipe e quatro garotas, três das quais voltariam para casa com pouco mais que uma história interessante sobre como passaram o outono.

3° Capitulo - A Escolha

PENSEI EM FINGIR UMA GASTRITE. Ou uma enxaqueca arrasadora. Ataque de pânico. Sério, qualquer coisa que me livrasse do café da manhã.
Então pensei em Maxon e no que ele sempre dizia sobre encarar as dificuldades com a cabeça erguida. Talvez não fosse meu ponto forte, mas se ao menos eu descesse até a sala de jantar, se ao menos estivesse presente… quem sabe ele me daria algum crédito.
Na esperança de consertar pelo menos parte do que fizera, pedi às criadas que me vestissem com a roupa mais discreta que eu tivesse. Só por esse pedido elas entenderam que não deviam perguntar nada sobre a noite anterior. O decote do vestido era um pouco mais fechado do que costumávamos usar no clima quente de Angeles, e as mangas chegavam quase até o cotovelo.
Era florido e alegre, o oposto do visual da noite anterior.
Mal consegui olhar para Maxon quando entrei na sala de jantar, mas pelo menos mantive a postura ereta. Quando finalmente dei uma espiada em sua direção, lá estava ele me observando, com um sorriso irônico nos lábios.
Enquanto comia, Maxon piscou para mim, e voltei a baixar a cabeça, fingindo estar muito interessada na minha quiche.
— Bom ver você com roupas de verdade hoje — Kriss disparou.
— Bom ver você de bom humor.
— O que deu na sua cabeça? — ela perguntou.
Desanimada, não quis prolongar a conversa.
— Estou sem paciência para isso hoje, Kriss. Só quero que você me deixe em paz.
Por um instante, achei que ela fosse reagir, mas aparentemente eu não valia o esforço. Ela se ajeitou na cadeira e continuou a comer. Se eu tivesse obtido um mínimo de sucesso na noite anterior, poderia justificar minhas ações. Mas do jeito que as coisas tinham ido, sequer podia fingir orgulho.
Arrisquei outro olhar para Maxon. Apesar de não estar mais me observando, dava para perceber que ainda se segurava para não rir enquanto cortava a comida. Era demais. Eu não suportaria um dia inteiro daquele jeito. Já estava me preparando para desmaiar, fingir uma dor de barriga ou tentar qualquer outra coisa para sair dali o mais rápido possível quando um mordomo entrou na sala. Trazia um envelope em uma bandeja de prata e fez uma reverência antes de colocá-la diante do rei Clarkson.
O rei pegou a carta e leu-a no ato.
— Malditos franceses! — resmungou. — Desculpe, Amberly, mas parece que terei de partir dentro de uma hora.
— Mais um problema com o tratado de comércio? — a rainha perguntou tranquilamente.
— Sim. Pensei que tivéssemos acertado tudo meses atrás. Precisamos ser firmes desta vez.
O rei atirou o guardanapo na mesa, levantou e seguiu em direção à porta.
— Pai! — Maxon chamou, também se levantando. — Não quer que eu vá junto?
De fato, eu tinha achado estranho o rei não vociferar nenhuma ordem para que o filho o seguisse quando se levantou. Afinal, era esse o seu método de ensino. Desta vez, porém, ele se voltou para Maxon e, com o olhar frio e a voz cortante, disparou:
— Quando você estiver pronto para se comportar como um rei, poderá vivenciar o que um rei faz. — E se retirou, sem dizer mais nada.
Maxon permaneceu de pé por alguns instantes, chocado e envergonhado pela bronca que levara na frente de todo mundo. Sentou novamente e se dirigiu à mãe:
— Para ser sincero, não estava muito animado com o voo — comentou, para aliviar a tensão com uma piada.
A rainha sorriu, como obviamente era sua obrigação, e nós ignoramos o ocorrido.
As outras garotas terminaram o café da manhã e pediram licença para ir ao Salão das Mulheres. Quando restávamos apenas Maxon, Elise e eu, levantei os olhos para ele. Mexemos na orelha ao mesmo tempo e sorrimos. Elise finalmente saiu, e nos encontramos no meio da sala de jantar, sem nos importarmos com as criadas e os mordomos que chegavam para limpar a mesa.
— Ele não vai levar você por minha causa — lamentei.
— Talvez — Maxon provocou. — Acredite, não é a primeira vez que ele tenta me colocar no meu lugar, e, na cabeça dele, tem milhares de motivos para isso. Não me surpreenderia se o principal motivo agora fosse despeito. Ele não quer deixar o poder, mas quanto mais perto eu chego de escolher uma esposa, maior a probabilidade de que isso aconteça. Apesar de ambos sabermos que ele nunca abrirá mão do governo.
— Você deveria me mandar para casa de uma vez. Ele nunca vai deixar que me escolha.
Eu ainda não contara a ele que seu pai havia me encurralado e me ameaçado no meio do corredor depois que Maxon o convencera a me deixar ficar. O rei Clarkson deixara bem claro que era para eu ficar de boca fechada sobre aquela conversa, e eu não pretendia contrariá-lo. Ao mesmo tempo, odiava guardar segredos de Maxon.
— Além disso — acrescentei, cruzando os braços — depois de ontem à noite, não acho que você me queira por aqui mesmo.
Ele mordeu os lábios.
— Desculpe pela minha reação, mas, sério, o que mais eu podia fazer?
— Eu tinha várias ideias — murmurei, ainda envergonhada por ter tentado seduzi-lo. — Agora me sinto uma idiota — completei, escondendo o rosto entre as mãos.
— Pare com isso — ele disse gentilmente e me abraçou. — Acredite, foi muito tentador, mas você não é assim.
— Mas não deveria ser? Isso não deveria fazer parte do que somos? — lamentei, apoiando a cabeça em seu peito.
— Você não se lembra da noite no abrigo? — Maxon perguntou baixinho.
— Sim, mas aquilo era basicamente a nossa despedida.
— Teria sido uma despedida fantástica.
Recuei, dando um leve empurrão nele. Ele achou graça, feliz por ter amenizado o desconforto da situação.
— Vamos esquecer esse assunto — propus.
— Ótimo — concordou. — Além do mais, temos um projeto para pôr em prática, você e eu.
— Temos?
— Temos. Como meu pai está fora, este é o momento ideal para começarmos a bolar estratégias.
— Certo — eu disse, empolgada por fazer parte de algo só entre nós dois.
Maxon respirou fundo, me deixando ansiosa para descobrir o que estava tramando.
— Você tem razão. Meu pai não a aprova. Mas ele pode ser obrigado a ceder se conseguirmos uma coisa.
— Que coisa?
— Precisamos fazer de você a favorita do povo.
Fiz uma careta.
— Esse é o nosso projeto, Maxon? Nunca vai acontecer. Vi uma pesquisa em uma das revistas da Celeste depois que tentei salvar Marlee. As pessoas não me suportam.
— As opiniões mudam. Não deixe um momento isolado desanimá-la.
Eu ainda achava que era impossível, mas o que poderia dizer? Se aquela era minha única opção, pelo menos deveria tentar.
— Tudo bem — eu disse. — Mas já vou avisando que não vai funcionar.
Com um sorriso travesso no rosto, Maxon chegou bem perto e me deu um beijo longo e demorado.
— Pois eu digo que vai.

2° Capitulo - A Escolha

ABRI AS PORTAS DA SACADA E DEIXEI o ar entrar no quarto. Embora fosse dezembro, uma brisa leve fazia cócegas na minha pele.
Não tínhamos mais permissão para ficar do lado de fora sem a presença de guardas, então a sacada teria de servir.
Andei pelo quarto e acendi algumas velas, na tentativa de tornar o espaço mais aconchegante. Quando ouvi uma batida na porta, apaguei o fósforo, peguei um livro, voei para a cama e ajeitei o vestido. Ora, Maxon, é assim que eu fico quando estou lendo alguma coisa.
— Entre — convidei, com uma voz que mal dava para escutar.
Maxon entrou. Levantei a cabeça graciosamente e percebi que ele ficou maravilhado ao encontrar o quarto à meia-luz.
Então focou sua atenção em mim, correndo os olhos pela minha perna à mostra.
— Aí está você — eu disse, fechando o livro e me levantando para cumprimentá-lo.
Ele fechou a porta e avançou, o olhar cravado nas minhas curvas.
— Queria dizer que você está maravilhosa esta noite.
Joguei o cabelo para trás.
— Ah, por causa deste vestido? Estava escondido no fundo do armário.
— Fico feliz que tenha tirado de lá.
Enlacei meus dedos nos dele.
— Sente-se aqui comigo. Não tenho visto você com muita frequência ultimamente.
Ele soltou um suspiro e me acompanhou.
— Sinto muito por isso. As coisas ficaram um pouco tensas depois das baixas que tivemos naquele ataque, e você sabe como é o meu pai. Enviamos vários guardas para proteger as famílias de vocês, o que diminuiu nossas forças, então ele está pior do que nunca. E também está me pressionando para que eu termine a Seleção, mas continuo firme. Quero ter tempo para pensar bem sobre as coisas.
Fomos até a cama e nos sentamos na beirada, bem perto um do outro.
— Claro. Quem deve controlar isso é você — comentei.
Ele concordou com a cabeça.
— Exatamente. Sei que já disse isso mil vezes, mas fico louco quando as pessoas me pressionam.
— Eu sei — confirmei, fazendo uma cara triste.
Ele fez uma pausa, e não consegui interpretar sua expressão. Tentava pensar num jeito de avançar sem parecer oferecida, mas não sabia exatamente como criar um momento romântico.
— Sei que é uma coisa boba, mas minhas criadas escolheram um perfume novo hoje. É muito forte? — perguntei, aproximando meu pescoço para que ele pudesse sentir.
Ele aproximou o rosto, seu nariz tocando minha pele.
— Não, querida. É ótimo — Maxon respondeu, com a cabeça entre meu ombro e meu pescoço, onde, então, me beijou.
Engoli em seco, tentando me concentrar. Precisava manter um mínimo de controle.
— Que bom que gostou. Estava com saudade.
Senti sua mão se esgueirar pelas minhas costas e baixei o rosto. Ali estava ele, os olhos cravados nos meus, nossos lábios separados por poucos milímetros.
— Quanta saudade você sentiu? — ele sussurrou.
Aquele olhar, somado ao sussurro, fazia meu coração bater depressa.
— Muita — respondi, também sussurrando. — Muita mesmo.
Inclinei o corpo para a frente, morrendo de vontade de beijá-lo. Maxon estava confiante. Ele me puxava para mais perto com uma mão e acariciava meus cabelos com a outra. Meu corpo queria se desfazer em um beijo, mas o vestido me impedia.
De repente, fiquei nervosa de novo, lembrando do meu plano.
Escorreguei as mãos pelos braços de Maxon e conduzi seus dedos até o fecho do vestido, na esperança de que isso bastasse. Suas mãos se detiveram ali por alguns instantes. Eu estava a ponto de simplesmente pedir que Maxon baixasse o zíper quando ele caiu na gargalhada.
Sua risada me fez voltar à realidade imediatamente.
— O que é tão engraçado? — perguntei, horrorizada, tentando pensar em um jeito discreto de sentir meu hálito.
— De todas as coisas que você já fez, essa foi de longe a mais divertida! — Maxon exclamou, rindo tanto que dava tapas no joelho.
— Como é?
Ele estalou um beijo na minha testa e disse:
— Sempre imaginei como seria quando você tentasse. — E voltou a gargalhar. — Desculpe, preciso ir — completou. Até seu jeito de levantar dava mostras de que estava se divertindo muito. — Vejo você amanhã.
E saiu. Simplesmente saiu!
Fiquei lá, sentada, completamente arrasada. Onde eu estava com a cabeça quando pensei que aquilo daria certo? Maxon podia não saber tudo sobre mim, mas pelo menos conhecia meu caráter. E aquela… aquela não era eu.
Baixei os olhos para aquele vestido ridículo. Era demais. Nem Celeste teria ido tão longe. Meu cabelo estava perfeito demais; minha maquiagem, carregada demais. Ele tinha entendido minhas intenções desde o primeiro segundo em que pôs os pés no quarto. Suspirando, apaguei as velas uma por uma e fiquei imaginando como iria encará-lo no dia seguinte.

1° Capitulo - A Escolha

NAQUELE DIA ESTÁVAMOS NO GRANDE SALÃO aturando mais uma aula de etiqueta quando os tijolos começaram a voar através da janela. Elise se jogou no chão imediatamente e começou a rastejar em direção à porta lateral, choramingando. Celeste soltou um grito agudo e disparou para o fundo do salão, escapando por pouco de uma chuva de estilhaços de vidro. Kriss me puxou pelo braço, e começamos a correr juntas até a saída.
— Rápido, senhoritas! — Silvia gritou.
Em questão de segundos, os guardas se alinharam nas janelas e começaram a atirar. Os estalos ecoavam em meus ouvidos enquanto fugíamos. Não importava mais se as armas usadas pelos rebeldes eram revólveres ou pedras: qualquer um que demonstrasse o menor grau de agressividade nos arredores do palácio iria morrer. Já não havia tolerância com esse tipo de ataque.
— Odeio correr com esses sapatos — Kriss murmurou, com um pedaço do vestido enrolado no braço e os olhos fixos no fim do corredor.
— Uma de nós terá que se acostumar com isso — Celeste comentou, respirando com dificuldade.
Suspirei.
— Se for eu, vou usar tênis todo dia. Não aguento mais isso.
— Conversem menos e corram mais! — Silvia gritou.
— Como podemos chegar ao andar de baixo por aqui? — Elise perguntou.
— E Maxon? — Kriss sussurrou.
Silvia não respondeu. Nós a seguimos por um labirinto de corredores em busca de um caminho para o porão, enquanto guardas e mais guardas corriam no sentido oposto ao nosso. Senti muita admiração por eles, imaginando a coragem necessária para ir de encontro ao perigo para proteger outras pessoas.
Os guardas que passavam por nós eram quase todos iguais, mas os olhos verdes de um deles estavam fixos em mim. Aspen não parecia estar com medo, nem sequer preocupado. Havia um problema, e ele iria resolvê-lo. Era o jeito dele.
Nosso olhar foi breve, mas suficiente. As coisas funcionavam assim com Aspen. Em frações de segundo, pude dizer a ele, em silêncio: Tenha cuidado e fique atento. E, sem uma palavra, ele respondeu: Pode deixar, apenas se cuide.
Apesar de lidar bem com essas coisas que não precisavam ser ditas, eu não tinha a mesma facilidade quando conversávamos de fato. Nossa última conversa não tinha sido das mais felizes. Eu estava prestes a deixar o palácio e tinha pedido a ele um tempo para superar a Seleção. Mas, no fim, acabei ficando e não lhe dei qualquer explicação.
Talvez sua paciência comigo estivesse se esgotando; talvez ele já não conseguisse ver apenas o que eu tinha de melhor. Eu precisava resolver essa situação de algum jeito. Não podia imaginar minha vida sem Aspen. Mesmo naquele momento, em que eu esperava ser escolhida por Maxon, um mundo sem Aspen parecia inconcebível.
— Aqui está! — Silvia exclamou, empurrando uma tábua misteriosa na parede.
Seguimos escada abaixo, com Elise e Silvia à frente.
— Caramba, Elise, dá para ir mais rápido? — Celeste gritou.
Queria muito ter ficado irritada com ela por ter dito aquilo, mas sabia que todas estávamos pensando a mesma coisa.
À medida que descíamos pela escuridão, tentava me preparar para as horas que desperdiçaríamos, escondidas como ratos.
Continuamos a correr. O som da nossa fuga abafava os gritos, até que uma voz masculina ecoou acima de nós.
— Parem! — ordenou.
Kriss e eu viramos ao mesmo tempo e enxergamos o uniforme claramente.
— Esperem! É um guarda — ela disse para as outras.
Paramos onde estávamos, resfolegando. Finalmente ele nos alcançou, também quase sem fôlego.
— Perdão, senhoritas. Os rebeldes fugiram assim que atiramos. Acho que não estavam a fim de briga hoje.
Silvia, alisando o vestido com as mãos, falou por nós:
— O rei concorda que é seguro? Se não for, você estará pondo a vida destas garotas em risco.
— O chefe da guarda liberou. Tenho certeza de que Sua Majestade…
— Não fale pelo rei. Venham, senhoritas, continuem.
— Você está falando sério? — perguntei. — Vamos descer para nada.
Silvia me encarou de um jeito que faria até um rebelde tremer de medo, e achei melhor ficar quieta. Silvia e eu tínhamos construído uma espécie de amizade quando ela, sem saber, me ajudou a tirar Maxon e Aspen da cabeça com suas aulas particulares. Porém, depois do meu showzinho no Jornal Oficial, alguns dias antes, nossa amizade parecia ter ido por água abaixo. Voltando-se para o guarda, ela continuou:
— Consiga uma ordem oficial do rei e voltaremos. Continuem andando, senhoritas.
Eu e o guarda trocamos um olhar de frustração e seguimos por caminhos opostos.
Silvia não demonstrou qualquer remorso quando, vinte minutos mais tarde, outro guarda veio avisar que estávamos livres para voltar ao andar de cima.
Estava tão nervosa com aquela situação que nem esperei Silvia e as outras garotas. Subi as escadas até o primeiro andar e segui direto para o meu quarto, ainda levando os sapatos pendurados nos dedos. Minhas criadas não estavam, mas havia uma bandejinha de prata com um envelope sobre a cama.
Na hora reconheci a caligrafia de May. Abri a carta e devorei suas palavras:

Ames,
Somos tias! Astra é maravilhosa. Queria que você estivesse aqui para conhecê-la pessoalmente, mas sabemos que você precisa ficar no palácio por enquanto. Você acha que passaremos o Natal juntas? Está chegando! Preciso voltar para ajudar Kenna e James. Ela é tão bonita que nem dá para acreditar! Aqui vai uma foto! Amamos você!
May

Puxei a foto brilhante de trás da carta. Estavam todos lá, menos Kota e eu. James, o marido de Kenna, estava radiante, em pé atrás da esposa e da filha, com os olhos inchados. Kenna estava sentada na cama, com um embrulhinho rosa entre os braços, parecendo ao mesmo tempo emocionada e exausta. Meus pais irradiavam orgulho, e o entusiasmo de May e Gerad saltava da foto. Claro que Kota não aparecia; ele não ganharia nada estando presente. Mas eu deveria estar lá.
Só que não estava.
Estava no palácio. E, às vezes, nem sabia por quê. Maxon ainda passava muito tempo com Kriss, mesmo depois de tudo que tinha feito para eu ficar. Do lado de fora, os rebeldes atacavam sem descanso; ali dentro, as palavras frias do rei destruíam minha confiança. Em meio a tudo isso, Aspen ainda me rodeava – um segredo que eu precisava guardar. E as câmeras iam e vinham, roubando pedaços de nossas vidas para entreter as pessoas. Eu estava encurralada por todos os lados, perdendo tudo o que sempre fora importante para mim.
Engoli minhas lágrimas de raiva. Estava cansada de chorar.
Em vez disso, comecei a elaborar um plano. A única maneira de resolver esses problemas era acabar com a Seleção. Embora de vez em quando ainda questionasse minha vontade de ser princesa, eu não tinha dúvidas de que queria ficar com Maxon. Para isso acontecer, não podia simplesmente cruzar os braços e esperar. Enquanto lembrava minha última conversa com o rei, comecei a andar em círculos, esperando as criadas.


Eu mal conseguia respirar, então sabia que tentar comer seria uma perda de tempo. Mas valeria o sacrifício. Precisava fazer algum progresso – e rápido. De acordo com o rei, as outras garotas estavam mais próximas de Maxon – fisicamente falando – e ele tinha dito que eu era muito comum para ganhar delas naquele quesito.
Como se minha relação com Maxon já não fosse complicada o bastante, ainda precisava reconquistar sua confiança. E eu não sabia se isso significava fazer perguntas ou não. Apesar de ter quase certeza de que a intimidade com as outras garotas não tinha ido tão longe, não conseguia parar de pensar no assunto. Nunca tinha tentado ser sedutora – praticamente todos os momentos íntimos que tivera com Maxon não foram intencionais – mas eu esperava que, se fosse mais direta, poderia deixar claro que estava tão interessada nele quanto as outras.
Respirei fundo, ergui a cabeça e entrei na sala de jantar. Cheguei um ou dois minutos atrasada de propósito, na esperança de que todos já estivessem sentados. Meus cálculos deram certo. Mas a reação foi ainda melhor do que eu imaginava.
Fiz a reverência cruzando uma perna na frente da outra, para que a fenda do vestido se abrisse e revelasse até a minha coxa.
O vestido era vermelho-escuro, tomara que caia, e deixava as costas totalmente expostas. Tinha certeza de que as criadas tinham feito alguma mágica para que ele parasse no lugar. Me endireitei, olhando fixamente para Maxon. Percebi que ele tinha parado de mastigar. Alguém derrubou um garfo.
Baixei os olhos e fui para o meu lugar, ao lado de Kriss.
— Francamente, America… — ela sussurrou.
Inclinei a cabeça na direção dela e perguntei, fingindo não ter entendido:
— O que foi?
Ela pousou os talheres no prato e nos encaramos.
— Você está vulgar.
— E você está com inveja.
Se não acertei na mosca, cheguei muito perto: ela corou um pouco e voltou a comer. Dei umas poucas beliscadas na comida, pois o vestido estava tão apertado que não dava para engolir muita coisa. Quando serviram a sobremesa, resolvi parar de ignorar Maxon, que, como eu esperava, tinha os olhos fixos em mim. Ele imediatamente ergueu a mão e mexeu na orelha; discretamente, fiz o mesmo. Dei uma olhada rápida no rei Clarkson, me segurando para não rir. Ele estava irritado – o que também fazia parte do plano – e não podia fazer nada a respeito.
Pedi licença para me retirar antes de todo mundo, dando a Maxon a chance de admirar a parte de trás do vestido. Corri para o quarto. Mal fechei a porta e tratei logo de abrir o zíper. Estava desesperada para respirar.
— Como foi? — Mary perguntou, se apressando para me ajudar.
— Ele ficou embasbacado. Todo mundo ficou.
Lucy soltou um gritinho e Anne se apressou para ajudar Mary.
— Vamos segurar o vestido. Apenas ande — foi sua ordem, e obedeci. — Ele vem esta noite?
— Sim. Não sei bem a que horas, mas com certeza vai aparecer.
Sentei na beirada da cama, com os braços cruzados na barriga para que o vestido aberto não caísse.
Anne fez uma cara triste.
— É uma pena que a senhorita tenha de sofrer por mais algumas horas. Mas estou certa de que valerá a pena.
Sorri, tentando dar a impressão de que não me importava com a dor. Tinha dito a elas que queria chamar a atenção de Maxon, mas não mencionara minha esperança de que, com um pouco de sorte, o vestido logo estaria jogado no chão.
— Quer que a gente fique até ele chegar? — Lucy perguntou, entusiasmada.
— Não, só me ajudem a fechar isto aqui de novo. Preciso pensar sobre algumas coisas — respondi, levantando para que elas pudessem me ajudar.
Mary segurou o fecho.
— Prenda a respiração, senhorita.
Obedeci, e mais uma vez fui espremida pelo vestido. Pensei em um soldado que se preparava para a guerra. A armadura era diferente, mas a ideia, a mesma.
Naquela noite, eu ia derrotar um homem.

terça-feira, 29 de julho de 2014

20° Capitulo (2p) - Cidades de Papel

Durante toda a noite de quarta-feira e todo o dia de quinta, tentei usar minha nova compreensão sobre Margo para encontrar algum significado nas pistas que eu possuía — alguma relação entre o mapa e os guias de viagem, ou alguma conexão entre Whitman e o mapa que me permitisse compreender o roteiro dela.
No entanto, cada vez mais eu me sentia como se ela tivesse ficado fascinada demais pelo prazer de ir embora para deixar uma trilha de migalhas de pão. E, se fosse esse o caso, o mapa que ela jamais pretendera que víssemos talvez fosse nossa melhor chance de encontrá-la.
Mas nenhum dos lugares marcados nele era específico o bastante. Mesmo o ponto em Catskill Park, que me interessava por ser o único que não ficava em uma metrópole, nem estava perto de uma, era grande e populoso demais para se encontrar uma pessoa sozinha.
Havia referências a lugares na cidade de Nova York na “Canção de mim mesmo”, mas eram lugares demais para rastrear.
Como você localiza com precisão um ponto em um mapa quando o ponto parece estar andando de uma metrópole a outra?


Eu já estava acordado, folheando os guias de viagem, quando meus pais entraram em meu quarto na sexta-feira de manhã. Eles raramente entravam juntos em meu quarto, então senti uma pontada de enjoo — talvez tivessem notícias ruins a respeito de Margo — antes de me lembrar que era o dia da colação de grau.
— Pronto, filho?
— Pronto. Quer dizer, não é nada de mais, mas vai ser legal.
— Você só se forma no colégio uma única vez — disse minha mãe.
— Eu sei — respondi.
Eles se sentaram na cama, de frente para mim. Notei uma troca de olhares e uma risada.
— O que foi? — perguntei.
— Bem, a gente queria dar seu presente de formatura — disse minha mãe. —Estamos muito orgulhosos de você, Quentin. Você é a maior conquista de nossa vida, e este dia é tão importante para você, e nós… Você é um rapaz e tanto.
Sorri e olhei para baixo. Então me pai me entregou um pacotinho bem pequeno, embrulhado em papel de presente azul.
— Não — falei, pegando o presente da mão dele.
— Vá, abra.
— Não brinquem — falei, olhando para o pacote.
Era do tamanho de uma chave. Tinha o peso de uma chave. Quando sacudi, ouvi um barulho de chave.
— Abra logo, meu amor — incentivou minha mãe.
Rasguei o papel. UMA CHAVE! Olhei bem de perto. A chave de um Ford! Ninguém lá em casa tinha um Ford.
— Vocês compraram um carro para mim?!
— Isso mesmo — disse meu pai. — Não é novo, mas só tem dois anos de uso e apenas trinta e dois mil quilômetros rodados.
Dei um pulo e abracei os dois.
— É meu?
— É! — quase gritou minha mãe.
Eu tinha um carro! Um carro! Todinho meu! Desenrosquei-me de meus pais e saí gritando obrigado, obrigado, obrigado, obrigado, obrigado, obrigado enquanto cruzava a sala de estar e arreganhava a porta da frente só de cueca e camiseta.
E ali, parada na entrada de carros de casa, com um laçarote azul enorme, havia uma minivan Ford. Eles me deram uma minivan. Eles podiam ter escolhido qualquer carro, mas escolheram uma minivan. Uma minivan. Ó, Deus da Justiça Automobilística, por que zombas de mim? Minivan, seu albatroz morto em torno do meu pescoço! Maldita marca de Caim! Seu monstro abominável de teto alto e motor de poucos cavalos!
Eu me virei, tentando manter a pose, e disse:
— Obrigado, obrigado, obrigado! — Embora na certa não soasse mais tão entusiasmado, já que estava fingindo.
— Ah, a gente sabia quanto você gostava de dirigir minha minivan — disse minha mãe.
Os dois estavam radiantes — obviamente convencidos de que tinham me proporcionado o transporte dos meus sonhos.
— É ótimo para levar os amigos! — acrescentou meu pai. E pensar que aqueles dois são especialistas em analisar e compreender a psique humana. — Escute — disse meu pai —, a gente tem que sair logo se quiser arrumar lugares bons.
Eu não tinha tomado banho, nem me vestido, nem nada. Bem, não que eu fosse de fato me vestir, mas ainda assim…
— Eu só preciso chegar lá por volta de meio-dia e meia — falei. — Preciso me arrumar.
— Bem — Meu pai franziu a testa —, eu queria ficar lá na frente, para poder tirar fo…
— Eu posso ir no MEU CARRO — interrompi. — Eu posso ir SOZINHO, no MEU CARRO. — E abri um sorriso enorme.
— Eu sei! — disse minha mãe, animada.
E peraí… No final das contas, um carro não deixa de ser um carro. Dirigir minha própria minivan certamente era uma evolução em relação a dirigir a minivan alheia.


Voltei para o computador e contei a Radar e Lacey (Ben não estava on-line) sobre a minivan.
OMNICTIONARIAN96: Na verdade, é uma excelente notícia. Posso passar aí e colocar um isopor na mala do carro? Vou ter que levar meus pais para a colação e não quero que eles vejam.
QRESURRECTION: Claro, o carro está destrancado. Isopor para quê?
OMNICTIONARIAN96: Bem, já que ninguém bebeu na minha festa, sobraram 212 garrafas de cerveja, e a gente vai levar tudo para a festa da Lacey amanhã à noite.
QRESURRECTION: 212 garrafas?
OMNICTIONARIAN96: O isopor é grande.
E então Ben apareceu no chat, GRITANDO que ele já tinha tomado banho e estava pelado, e que só precisava colocar a beca e o capelo. Estávamos todos conversando sobre nossa colação de grau nua. Depois que todo mundo desligou para terminar de se arrumar, entrei no chuveiro e fiquei parado para que a ducha batesse diretamente no rosto, e comecei a pensar enquanto a água me acertava.
Nova York ou Califórnia? Chicago ou Washington? Agora eu podia ir também, pensei. Tinha um carro, assim como ela. Podia ir para os cinco pontos do mapa e, mesmo que não a encontrasse, seria mais divertido do que passar outro verão escaldante em Orlando. Mas não. É como invadir o SeaWorld. É necessário um plano perfeito, e então você o executa com precisão e depois… nada. É só o SeaWorld, só que mais escuro.
Foi o que ela me disse: o prazer não está na execução; o prazer está no planejamento.
E foi nisso que pensei enquanto ficava ali, de pé debaixo do chuveiro: o planejamento.
Ela sentada no centro comercial abandonado com seu caderno, planejando. Talvez estivesse planejando uma viagem, usando o mapa para imaginar as rotas. Ela lê o livro de Whitman e ilumina a frase “Vadio uma jornada perpétua” porque esse é o tipo de coisa que gosta de se imaginar fazendo, o tipo de coisa que gosta de planejar. Mas é esse o tipo de coisa que ela realmente gosta de fazer?
Não. Porque Margo conhece o segredo de ir embora, o segredo que só agora eu havia descoberto: ir embora é uma sensação boa e pura apenas quando você abandona uma coisa importante, algo que tinha um significado. Arrancando a vida pela raiz. Mas só se pode fazer isso quando sua vida já criou raízes. E assim, quando ela foi embora, se foi para sempre. Mas eu não conseguia acreditar que ela havia saído para uma jornada perpétua. Eu tinha certeza de que ela havia seguido para algum lugar — um lugar onde pudesse permanecer por tempo suficiente para que ele se tornasse importante, por tempo suficiente para que a próxima partida fosse tão boa quanto a última.
Existe um canto no mundo, um lugar bem longe daqui, onde ninguém sabe o que “Margo Roth Spiegelman” significa. E Margo está nesse canto, escrevendo em seu caderninho preto. A água começou a ficar fria. Eu nem tinha tocado no sabonete, mas saí do banho mesmo assim, enrolei uma toalha na cintura e me sentei diante do computador.
Abri o e-mail de Radar sobre seu programa no Omnictionary e baixei o plug- in. Era bem legal. Primeiro digitei um código postal do centro de Chicago e cliquei em “localização”, e então estabeleci um raio de trinta quilômetros. O programa gerou cem resultados, desde Navy Pier até Deerfield. A primeira frase de cada artigo apareceu em minha tela, e eu li todas em cinco minutos. Nada me saltou aos olhos. Então tentei um código postal próximo de Catskill Park, no estado de Nova York. Menos resultados dessa vez, oitenta e dois, organizados por cronologia crescente de publicação no Omnictionary. Comecei a ler:

Woodstock, Nova York, é uma cidade no condado de Ulster, em Nova York, talvez mais conhecida pelo festival homônimo [ver Festival de Woodstock], de 1969, evento de três dias que incluiu shows de músicos como Jimi Hendrix e Janis Joplin, mas que na verdade aconteceu em uma cidade vizinha.

O Lago Katrine é um pequeno lago no condado de Ulster, em Nova York, frequentemente visitado por Henry David Thoreau.

O Catskill Park abrange uma área de setecentos mil acres nas montanhas Catskill e é administrado em conjunto pelos governos local e estadual, sendo que a prefeitura de Nova York detém cinco por cento do terreno e obtém a maior parte de seu abastecimento de água dos reservatórios do parque.

Roscoe, Nova York, é uma vila no Estado de Nova York que, de acordo com censo recente, contém duzentas e sessenta e uma residências.

Agloe, Nova York, é uma cidade fictícia criada pela Esso no início dos anos 1930 e inserida nos mapas turísticos como uma forma de identificar plágios e violações de copyright, ou seja, uma cidade de papel.

Cliquei no link e abri o artigo completo, que continuava da seguinte forma:

Localizada no cruzamento de duas estradas de terra imediatamente ao norte de Roscoe, no estado de Nova York, Agloe foi criada pelos cartógrafos Otto G. Lindberg e Ernest Alpers, que inventaram uma cidade cujo nome era um anagrama de suas iniciais. Armadilhas para identificar violações de copyright fazem parte do mundo da cartografia há séculos. Diversos cartógrafos criaram pontos de referência, ruas e cidades fictícias e os inseriram secretamente em seus mapas. Caso o local apareça no mapa de outro cartógrafo, fica comprovado que houve plágio do mapa. Tais armadilhas são também conhecidas como armadilhas-chave, ruas de papel ou cidades de papel [ver também Entradas fictícias]. Embora poucas empresas desenvolvedoras de mapas admitam sua existência, armadilhas para a identificação de violação de copyright ainda aparecem em mapas atuais. Nos anos 1940, a cidade de Agloe, Nova York, começou a aparecer nos mapas de outras empresas. A Esso suspeitou de plágio e preparou diversos processos legais, mas, na verdade, um morador não identificado havia construído um prédio chamado “The Agloe General Store” exatamente no cruzamento que aparecia no mapa da Esso. O prédio, que ainda existe [carece de fontes], é o único em Agloe, e a cidade continua a aparecer em muitos mapas e é tradicionalmente identificada com uma população de nenhum habitante.

Todos os artigos do Omnictionary contêm subpáginas nas quais você pode ver as modificações incorporadas ao texto e quaisquer discussões levantadas por membros do Omnictionary a esse respeito. O artigo sobre Agloe não era modificado por ninguém havia quase um ano, mas existia um comentário recente de um usuário anônimo na página de discussões:

para sua informação, a quem Quer que edite isto — a População de agloe Vai na verdade ser de Um habitante até o dia 29 de Maio ao Meio-dia.

Reconheci o uso das maiúsculas imediatamente.
As regras de letra maiúscula são tão injustas com as palavras que ficam no meio.
Minha garganta quase fechou, mas me obriguei a manter a calma. O comentário tinha sido publicado quinze dias antes. E tinha ficado lá, à minha espera, aquele tempo todo. Olhei para o relógio no computador. Eu tinha menos de vinte e quatro horas. Pela primeira vez em semanas, ela parecia completa e inegavelmente viva para mim. Ela estava viva. Por pelo menos mais um dia, ela estava viva.
Eu havia me concentrado em seu paradeiro por tanto tempo, na tentativa de evitar imaginar obsessivamente se ela estava viva ou não, que não fiz ideia de quão aterrorizado estivera até aquele momento. Mas, meu Deus do céu! Ela estava viva.
Dei um pulo, deixei a toalha cair e liguei para Radar. Segurei o telefone entre o ombro e o pescoço enquanto colocava uma cueca e então uma bermuda.
— Descobri o que significa cidades de papel! Você está com seu tablet?
— Estou. Mas, cara, você já tinha que estar aqui. Eles estão prestes a arrumar a gente em fila.
E ouvi Ben gritar junto ao telefone:
— E avisa a ele que é melhor que ele esteja pelado!
— Radar — falei, tentando transmitir a importância da situação —, dê uma olhada no artigo sobre Agloe, Nova York. Entendeu?
— Entendi. Estou lendo. Aguenta aí. Uau. Uau. Será que é o ponto do mapa em Catskill?
— Eu acho que é. É muito perto. Veja a página de discussão. — … — Radar?
— Meu Deus!
— Eu sei, eu sei! — gritei.
Não ouvi a resposta dele porque estava vestindo uma camiseta, mas quando coloquei o telefone de volta na orelha o ouvi falando com Ben.
Simplesmente desliguei. Pesquisei na internet como ir de carro de Orlando até Agloe, mas o aplicativo de mapas nunca tinha ouvido falar do lugar, então procurei por Roscoe. De acordo com o aplicativo, se eu dirigisse a uma velocidade média de cem quilômetros por hora, levaria dezenove horas e quatro minutos para chegar lá. Eram duas e quinze da tarde. Eu tinha vinte e uma horas e quarenta e cinco minutos.
Imprimi as indicações de trajeto, peguei as chaves da minivan e tranquei a porta de casa.


— São dezenove horas e quatro minutos de viagem — falei ao telefone.
Era o celular de Radar, mas foi Ben quem atendeu.
— E o que você vai fazer? — perguntou ele. — Vai pegar um avião?
— Não, não tenho dinheiro suficiente e, de qualquer forma, fica a oito horas de Nova York. Então vou de carro.
De repente, Radar pegou o telefone de volta:
— Quanto tempo de viagem?
— Dezenove horas e quatro minutos.
— Segundo quem?
— Google Maps.
— Droga — disse ele. — Nenhum desses programas de mapa faz o cálculo considerando o trânsito. Já ligo de volta. E ande logo. A gente precisa entrar na fila agora!
— Eu não vou. Não posso perder tempo — protestei, mas já estava falando sozinho.
Radar me ligou um minuto depois:
— Se você mantiver a velocidade média de cem quilômetros por hora, sem parar, e considerando os padrões habituais de tráfego, deve levar vinte e três horas e nove minutos. O que significa que deve chegar lá pouco depois de uma da tarde, então vai ter que tentar ganhar tempo como puder.
— O quê? Mas…
— Eu não quero ser chato — disse Radar —, mas talvez, neste caso especificamente, a pessoa que está sistematicamente atrasada devia ouvir a pessoa que é sempre pontual. Mas você precisa passar aqui por pelo menos um segundo, senão seus pais vão pirar quando seu nome for chamado e você não aparecer, e também, não que isso seja tão importante assim, mas só para registrar, você está com toda a nossa cerveja.
— Eu obviamente não tenho tempo — respondi.
Ben se aproximou do telefone:
— Deixe de ser babaca. Você vai perder cinco minutos.
— Ok, tudo bem.
Virei à direita depois do sinal e acelerei a minivan em direção ao colégio — ela tinha mais arranque que a da minha mãe, mas não muito mais.
Cheguei ao ginásio em três minutos. Não estacionei, só larguei o carro no meio do estacionamento e saltei. Enquanto disparava em direção ao ginásio, vi três figuras de beca vindo em minha direção. Dava para ver as pernas compridas de Radar sob a beca esvoaçante ao redor, e Ben ao lado, usando tênis sem meias. Lacey vinha logo atrás deles.
— Peguem a cerveja — falei enquanto passava por eles. — Preciso falar com meus pais.
Os familiares dos formandos estavam nas arquibancadas, e eu corri umas duas vezes de um lado a outro da quadra de basquete até ver minha mãe e meu pai mais ou menos no meio da arquibancada. Estavam acenando para mim. Subi os degraus de dois em dois, então estava um pouquinho sem fôlego quando me ajoelhei ao lado deles e disse:
— Certo, eu não vou [arf] participar da colação, porque [arf] acho que descobri onde Margo está e [arf] eu simplesmente preciso ir, estou com meu celular ligado [arf],e, por favor, não fiquem bravos comigo, e obrigado de novo pelo carro.
Minha mãe agarrou meu pulso e disse:
— O quê? Quentin, do que você está falando? Acalme-se.
— Estou indo para Agloe, em Nova York — expliquei de novo —, e preciso ir agora. Tem toda uma história. Certo, eu preciso ir. Não tenho mais tempo. Estou com o celular. Amo vocês.
Tive de puxar o braço para me soltar. Antes que eles pudessem dizer qualquer coisa, pulei os degraus e corri em direção à minivan. Entrei no carro, o motor ligado, e eu já estava começando a dirigir quando vi Ben no banco do carona.
— Pegue a cerveja e desça logo do carro! — berrei.
— A gente vai com você — disse ele. — Você ia acabar dormindo se tentasse dirigir essa distância toda.
Olhei para trás e vi Lacey e Radar segurando os celulares junto às orelhas.
— Tenho que avisar meus pais — explicou Lacey, digitando no telefone. — Ande logo, Q. Vá, vá, vá, vá, vá, vá.