sexta-feira, 1 de agosto de 2014

12° Capitulo (3p) - Cidades de Papel

São 2h40. Lacey está dormindo. Radar está dormindo. Eu estou dirigindo. A estrada está deserta. Até os motoristas de caminhão foram dormir. Faz alguns minutos que não vejo faróis vindo no sentido contrário. Ben me mantém acordado, conversando comigo. Estamos falando de Margo.
— Você chegou a pensar em como a gente vai, tipo, achar Agloe? — pergunta ele.
— Hum, tenho uma ideia aproximada de como é o cruzamento — respondo. — E não é nada além de um cruzamento.
— E ela vai simplesmente estar sentada na esquina, em cima do capô do carro, com o queixo apoiado nas mãos, esperando por você?
— Isso certamente ajudaria — respondo.
— Cara, estou meio preocupado que você possa… tipo, se isso não sair do jeito que você está planejando… que você possa ficar muito decepcionado.
— Eu só quero encontrá-la — digo, porque é verdade. Quero que ela esteja viva e bem, que seja encontrada. Não quero perder o fio da meada. Tudo o mais é secundário.
— É, mas… sei lá — diz Ben. Posso sentir o olhar dele em mim, dando uma de Ben, o Sério. — Só… Só tenha em mente que às vezes o jeito como a gente pensa em alguém não é exatamente o jeito como essa pessoa é. Tipo, eu sempre achei Lacey bonita, legal, o máximo, mas agora que estou com ela de verdade… não é exatamente a mesma coisa. As pessoas são diferentes quando você sente o cheiro delas e as vê de perto, entendeu?
— Sei disso — respondo.
Sei exatamente por quanto tempo e com qual intensidade eu a imaginei da maneira errada.
— Só estou dizendo que, para mim, era fácil gostar de Lacey antes. É muito fácil gostar de alguém a distância. Mas, quando ela deixou de ser aquela coisa maravilhosa e inatingível e tal e começou a ser só uma menina que tem uma relação esquisita com a comida, de pavio curto e meio mandona, eu basicamente tive que começar a gostar de uma pessoa completamente diferente.
Dava para sentir minhas bochechas ficando vermelhas.
— Você está dizendo que não gosto da Margo de verdade? Depois de tudo isto, doze horas dentro deste carro, e você não acha que eu me importo com ela porque eu… — Paro de falar. — Você acha que só porque tem namorada pode subir em um pedestal e ficar me dando lição de moral? Você às vezes é tão…


E então paro de falar porque vejo, logo depois do alcance dos faróis, aquilo que muito em breve vai me matar. Duas vacas distraídas no meio da estrada. Elas se tornam visíveis de repente: uma vaca malhada na faixa da esquerda e, na nossa faixa, uma criatura imensa, da largura do nosso carro, absolutamente paralisada, a cabeça virada para trás, nos avaliando com olhos inexpressivos. É inteiramente branca, uma muralha branca de vaca que não se pode escalar ou passar por baixo ou desviar. Só o que se pode fazer é acertá-la em cheio. Eu sei que Ben também está vendo porque prendeu a respiração.
Dizem que a vida passa diante de nossos olhos em momentos como este, mas não é o que acontece comigo. Nada passa diante dos meus olhos exceto a imensidão impossível de pelo branco, a apenas um segundo de nós agora. Não sei o que fazer. Não, esse não é o problema. O problema é que não há nada a fazer, a não ser acertar a parede branca, matando tanto ela quanto nós todos.
Piso no freio, mas só por força do hábito, e não por esperança de que vá dar certo: não tem como fugir. Tiro as mãos do volante. Não sei por que faço isso, mas ergo as mãos como se estivesse me rendendo. E penso na coisa mais banal do mundo: não quero que isso aconteça. Não quero morrer. Não quero que meus amigos morram. E, honestamente, enquanto o tempo desacelera e minhas mãos estão no ar, me dou a chance de pensar em ainda mais uma coisa, e penso nela. Eu a culpo por esta caçada ridícula e fatal — eu a culpo por nos colocar em risco, por me transformar no tipo de imbecil que fica acordado a noite inteira e dirige depressa demais. Eu não estaria aqui morrendo se não fosse por ela. Teria ficado em casa, como sempre fiz, e estaria a salvo, teria feito a única coisa que sempre quis fazer: envelhecer.
Depois de abandonar o controle do veículo, fico surpreso ao ver a mão de alguém no volante. Fazemos uma curva antes que eu perceba que estamos virando, e então me dou conta de que Ben está puxando o volante na própria direção, girando o carro em uma tentativa desesperada de desviar da vaca, e então estamos no acostamento e logo em seguida na grama. Ouço os pneus girando à medida que Ben vira o volante com força na direção oposta. Paro de olhar. Não sei se meus olhos estão fechados ou se simplesmente pararam de enxergar. Meu estômago e meus pulmões colidem dentro de mim e se esmagam. Algo pontudo acerta minha bochecha. Nós paramos. Não sei por quê, mas toco meu rosto.
Tiro a mão e vejo que está suja de sangue. Toco meus braços em uma espécie de abraço, mas estou apenas verificando se estão no lugar, e estão. Olho para minhas pernas. Lá estão elas. Tem um pouco de vidro. Olho ao redor. Garrafas quebradas. Ben está olhando para mim, tocando o próprio rosto. Parece bem. Ele se abraça, exatamente como eu. Seu corpo ainda está funcionando. Ele fica só olhando para mim.
Vejo a vaca pelo retrovisor. E só agora, depois de um tempo, é que Ben começa a gritar. Ele me encara e grita, a boca escancarada, um grito grave, gutural e desesperado. Ele para de gritar. Tem alguma coisa errada comigo. Sinto-me fraco. Meu peito está queimando. E então inspiro. Tinha me esquecido de respirar. Estava prendendo a respiração o tempo todo. E me sinto muito melhor agora. Inspire pelo nariz, expire pela boca.
— Quem se machucou?! — grita Lacey.
Ela solta os cintos de segurança da posição de dormir e se inclina para o porta-malas. Quando me viro, vejo que a porta traseira está aberta e por um instante penso que Radar foi jogado para fora do carro, mas então eu o vejo se levantar. Ele está passando as mãos no rosto e dizendo:
— Eu tô legal, eu tô legal. Todo mundo legal?
Lacey nem responde; ela pula para a frente, entre mim e Ben. Está apoiada na cozinha da casa, olhando para Ben e dizendo:
— Meu amor, você está bem?
Seus olhos estão cheios d’água, como uma piscina em dia de chuva. Ben responde:
— TudobemtudobemQtásangrando.
Ela se vira para mim, e eu não devia chorar mas não consigo evitar, não porque esteja sentindo dor, mas porque estou apavorado, e ergui as mãos, e Ben nos salvou, e agora tem uma menina olhando para mim meio que do mesmo jeito que uma mãe faz, e isso não devia me fazer chorar, mas faz.
Eu sei que o machucado em minha bochecha não é sério, e fico tentando dizer isso, mas só consigo chorar. Lacey aperta o corte com a ponta dos dedos finos e macios e grita para Ben arrumar alguma coisa que sirva de curativo, então surge uma faixa da bandeira da Confederação pressionada na minha bochecha, à direita do meu nariz.
— Segure isso bem apertado — diz ela. — Você está bem? Tem mais alguma coisa doendo?
Respondo que não. Só então percebo que o carro ainda está ligado, com a marcha engrenada, e só está parado porque estou pisando no freio. Coloco em ponto morto e desligo o motor. Assim que giro a chave, ouço um barulho de líquido vazando — não pingando, quase uma cascata.
— É melhor a gente sair do carro — diz Radar.
Mantenho a bandeira da Confederação no rosto. O barulho de líquido escorrendo continua.
— É gasolina! Vai explodir! — grita Ben.
Ele escancara a porta do carona e sai correndo, em pânico. Pula uma cerca de madeira e dispara por um campo de feno. Eu também salto do carro, mas não com a mesma pressa. Radar está do lado de fora, e enquanto Ben pica a mula, ele ri.
— É cerveja — diz ele.
— O quê?
— As cervejas quebraram — explica, apontando para o isopor quebrado e os litros de espuma líquida que escorrem de dentro dele.
Tentamos chamar Ben, mas ele não nos ouve porque está muito ocupado correndo pela plantação, gritando: — VAI EXPLODIR!
A beca sobe, expondo sua bunda ossuda sob a luz cinzenta do amanhecer. Eu me viro para a estrada ao ouvir um carro se aproximando. O monstro branco e sua amiga malhada conseguiram cruzar para o acostamento do outro lado, ainda impassíveis.
Ao me virar para a minivan, percebo que ela está batida na cerca. Avalio os danos, enquanto Ben finalmente decide voltar para o carro. Quando giramos na pista, o carro deve ter se arrastado na cerca, pois tem um arranhão profundo na porta de correr, tão profundo que, olhando bem de perto, dá para ver o interior da minivan. Mas, fora isso, está tudo perfeito. Nenhum outro amassado. Nenhum vidro quebrado. Nenhum pneu furado. Dou a volta até a traseira do carro e examino as duzentas e dez garrafas quebradas de cerveja ainda borbulhando.
Lacey se aproxima e passa o braço ao meu redor. Ficamos os dois encarando o riacho de espuma de cerveja escorrendo até a vala do acostamento.
— O que aconteceu?
Eu conto a ela: estávamos mortos, mas Ben conseguiu girar o carro de um jeito especial, feito uma espécie de bailarina veicular espetacular.
Ben e Radar se enfiam debaixo do carro. Nenhum deles entende absolutamente nada do assunto, mas imagino que o gesto ofereça algum conforto. A bainha da beca de Ben sobe e suas panturrilhas ficam de fora.
— Cara — grita Radar. — Parece que está tudo, tipo, bem.
— Radar — digo —, o carro rodou umas oito vezes. É claro que não está tudo bem.
— Bom, parece que está tudo bem — diz Radar.
— Ei — digo, segurando os tênis de Ben. — Ei, chega aqui. — Ele se arrasta de debaixo do carro, e eu o ajudo a se levantar.
Suas mãos estão sujas de graxa. Eu puxo uma delas e o abraço. Se eu não tivesse largado o volante, e se ele não o tivesse agarrado com tanta determinação, tenho certeza de que estaria morto.
— Obrigado — digo, batendo nas costas dele, provavelmente com força demais. — Você foi o melhor copiloto que já vi.
Com a mão suja de graxa, ele dá uma palmadinha em minha bochecha não machucada.
— Eu fiz aquilo para me salvar, não para salvar você — diz ele. — Pode acreditar, não pensei em você nem por um segundo.
— Nem eu em você — digo, rindo.
Ben me encara, quase sorrindo, e então fala:
— Cara, que vaca gigante. Acho que não era nem uma vaca, estava mais para uma baleia terrestre.
Eu rio. Radar se aproxima:
— Cara, realmente acho que está tudo bem. Quer dizer, a gente só perdeu uns cinco minutos. Não precisamos nem aumentar a velocidade.
Lacey está encarando o arranhão na lateral do carro, os lábios contraídos.
— O que você acha? — pergunto a ela.
— Vambora — responde ela.
— Vambora — Radar dá seu voto.
Ben infla as bochechas e expira.
— Só porque eu sou suscetível a pressão da sociedade: vambora.
— Vambora — acrescento. — Mas eu não dirijo mais de jeito nenhum.
Ben pega as chaves da minha mão. Entramos no carro. Radar o guia pelo terreno acidentado até voltarmos à rodovia interestadual. A oitocentos e setenta e dois quilômetros de Agloe.

11° Capitulo (3p) - Cidades de Papel

Chegamos ao trecho em obras. A rodovia afunila para uma pista só e ficamos presos atrás de um caminhão articulado que segue precisamente no limite de velocidade de sessenta quilômetros por hora.
Lacey é a melhor motorista para a situação; eu teria ficado batendo no volante, mas ela apenas conversa tranquilamente com Ben, até que finalmente se vira e diz:
— Q, preciso muito ir ao banheiro, e a gente está perdendo tempo aqui atrás deste caminhão de qualquer forma.
Faço que sim com a cabeça. Não posso culpá-la. Eu teria obrigado a gente a parar há muito tempo se não pudesse mijar em uma garrafa. Era muito heroico da parte dela aguentar por todo aquele tempo.
Ela entra com o carro em um posto vinte e quatro horas, e saio para esticar as pernas dormentes. Quando Lacey volta correndo para a minivan, estou no banco do motorista. Nem sei como acabei sentado ali, nem por quê. Ela se aproxima da porta da frente e me vê. A janela está aberta.
— Eu posso dirigir — digo.
O carro é meu, afinal de contas, e a missão é minha. Ela responde:
— Sério? Tem certeza?
— Tenho, tenho. Tranquilo — respondo, e ela simplesmente abre a porta de correr e se deita no banco atrás de mim.

10° Capitulo (3p) - Cidades de Papel

Está chegando a hora de pararmos pela segunda vez. São 0h13. Sinto como se meus dedos não fossem dedos; é como se eles fossem movimento. Estou batucando no volante enquanto dirijo. Depois que Radar localiza o posto BP mais próximo com o tablet, optamos por acordar Lacey e Ben.
— Gente, está quase na hora da parada — digo.
Nenhuma reação. Radar se vira e coloca a mão no ombro de Lacey.
— Lacey, hora de acordar.
Nada. Ligo o rádio. Sintonizo em uma estação dedicada a músicas antigas. No momento está tocando “Good Morning”, dos Beatles. Aumento o volume. Zero reação. Então Radar aumenta o volume ainda mais. E aí aumenta mais. E, quando chega o refrão, ele começa a cantar junto. E então eu começo a cantar junto. Acho que é meu berro desafinado que, afinal, faz os dois acordarem.
— FAÇA ISSO PARAR! — grita Ben.
Nós diminuímos o volume.
— Ben, a gente vai parar agora. Você precisa mijar?
Ele fica em silêncio por um instante, então nós ouvimos um farfalhar na escuridão lá trás, e eu fico me perguntando se ele tem algum método para verificar se a bexiga está cheia.
— Pensando bem, acho que não — diz ele.
— Beleza, então você fica abastecendo.
— Como único integrante masculino do carro que ainda não mijou aqui dentro, sou o primeiro a ir ao banheiro — diz Radar.
— Shhh — murmura Lacey. — Calem a boca, todos vocês.
— Lacey, você precisa acordar e ir ao banheiro — diz Radar. — A gente vai parar agora.
— Você pode comprar umas maçãs — digo a ela.
— Hum… maçãs — sussurra ela com uma vozinha de criança. — Lacey ama maçãs.
— E depois quem vai dirigir é você — diz Radar. — Então é melhor acordar agora.
Ela senta e, em sua voz normal, diz:
— Já isso Lacey não ama tanto assim.
Pegamos a saída, e o posto fica a um quilômetro e meio da estrada, o que não parece tão longe, mas Radar diz que vamos levar uns quatro minutos para chegar lá. Além disso, o trânsito na Carolina do Sul já nos tomou muito tempo, e Radar avisa que vamos passar por obras na estrada em mais ou menos uma hora — e isso pode ser um problemão. Mas não tenho o direito de me preocupar.
Lacey e Ben já estão acordados o bastante para esperar junto à porta de correr, como da outra vez, e quando freamos do lado da bomba de gasolina todo mundo pula do carro, e eu jogo as chaves para Ben, que as pega no ar. Radar e eu passamos depressa pelo cara branco do caixa, até que Radar para ao reparar que o cara o está encarando.
— É isso mesmo — diz ele, sem vergonha alguma. — Estou usando uma camiseta HERANÇA, NÃO ÓDIO por cima da minha beca de formatura. Aliás, vocês vendem calças aqui?
— Tem umas calças camufladas perto dos óleos de motor — responde o caixa, parecendo desconcertado.
— Excelente — diz Radar. Então se vira para mim e fala: — Você pode fazer a gentileza de pegar uma calça camuflada para mim? E talvez uma camiseta melhorzinha?
— Pode deixar.
E então descubro que calças camufladas não seguem a numeração normal. Só têm dois tamanhos: médio e grande. Pego uma média e uma camiseta grande e cor-de-rosa que diz melhor vovó do mundo. E três garrafas de Bluefin. Entrego tudo para Lacey quando ela sai do banheiro e entro no banheiro feminino, já que Radar ainda está ocupando o masculino. Acho que nunca entrei em um banheiro feminino de posto de gasolina antes.
Diferenças: Não tem máquina de camisinha.
As paredes não são tão pichadas.
Não tem mictório.
O cheiro é mais ou menos o mesmo, o que é uma decepção e tanto.


Quando saio, Lacey está pagando, Ben está buzinando, e depois de um instante de confusão eu corro em direção ao carro.
— Perdemos um minuto — diz Ben, sentado no banco do carona.
Lacey pega a rua que nos levará de volta à rodovia.
— Foi mal — responde Radar do banco de trás, ao meu lado, vestindo sua calça camuflada nova por baixo da beca. — O lado bom é que agora tenho uma calça. E uma camiseta nova. Cadê ela, Q? — Lacey joga a camiseta para ele. — Muito engraçado.
Ele tira a beca e veste a camiseta da vovó enquanto Ben reclama que ninguém comprou calça para ele. Ele diz que está com a bunda coçando. E, pensando bem, ele meio que precisa ir ao  banheiro.

9° Capitulo (3p) - Cidades de Papel

Nunca imaginei que fosse possível ficar enjoado de comer barrinhas de cereal. Mas é. Dou apenas duas mordidas na quarta barrinha do dia e meu estômago já está revirando. Abro o console central e jogo a barrinha de volta lá dentro. Nós nos referimos a esta parte da cozinha como despensa.
— Ah, como eu queria que a gente tivesse umas maçãs — diz Radar. — Deus, como seria gostoso comer uma maçã agora!
Suspiro. Bosta de último grupo alimentar. Para completar, embora eu tenha parado de beber Bluefin há algumas horas, ainda estou cheio de tremeliques.
— Ainda estou com uns tremeliques — digo.
— É — concorda Radar. — Não consigo parar de mexer os dedos. — Olho para baixo. Ele está batucando os dedos nos joelhos silenciosamente. — Estou falando sério. Não consigo mesmo parar.
— Certo, eu ainda não estou cansado, então a gente fica acordado até umas quatro da manhã, depois acorda os dois e dorme até as oito.
— Beleza — diz ele.
Ficamos em silêncio. A estrada está vazia agora; só eu e uns caminhões, e parece que meu cérebro está processando informações onze mil vezes mais rápido do que o normal, e então me dou conta de que o que estou fazendo é muito fácil, de que viajar em uma rodovia interestadual é a coisa mais simples e agradável do mundo: tudo que preciso fazer é me manter no meio da faixa e ter certeza de que ninguém chegue perto demais, ou que eu não chegue perto demais de ninguém, e continuar seguindo.
Talvez Margo também tenha passado por isto, mas eu nunca teria me sentido assim se estivesse sozinho. Até que Radar quebra o silêncio:
— Bem, se a gente não vai dormir até as quatro…
— É, a gente devia abrir outra garrafa de Bluefin — termino a frase por ele. E é o que a gente faz.

8° Capitulo (3p) - Cidades de Papel

Assim que passamos pela Carolina do Sul, flagro Radar bocejando e insisto em trocar de lugar com ele.
Eu gosto de dirigir — e este carro pode até ser uma minivan, mas é minha minivan. Radar vai para o primeiro quarto enquanto seguro o volante, pulando depressa sobre a cozinha para assumir o banco do motorista.
Estou descobrindo que viajar ensina muito sobre você mesmo. Por exemplo, nunca pensei que pudesse ser o tipo de pessoa que mija em uma garrafa quase vazia de Bluefin enquanto dirige pela Carolina do Sul a cento e vinte e cinco quilômetros por hora — mas, na verdade, eu sou esse tipo de pessoa. Também nunca soube que quando se mistura um monte de xixi com um restinho de Bluefin, o resultado é uma cor turquesa fosforescente maravilhosa.
É tão bonito que tenho vontade de tampar a garrafa e deixá-la no porta-copos para que Lacey e Ben vejam quando acordarem. Mas Radar discorda de mim.
— Se você não jogar essa merda pela janela agora, termino nossa amizade de onze anos neste instante.
— Não é merda — respondo. — É xixi.
— Agora — ordena ele.
Então descarto a garrafa. Pelo retrovisor do motorista, vejo-a bater no asfalto e explodir feito um balão cheio d’água. Radar também vê.
— Ai, meu Deus — diz ele. — Espero que esta seja uma daquelas situações traumáticas tão nocivas à minha psique que são bloqueadas completamente da memória.

7° Capitulo (3p) - Cidades de Papel

Finalmente passamos por um caminhão atravessado na pista e voltamos à velocidade normal, mas Radar faz as contas de cabeça e diz que precisamos manter a velocidade média de cento e vinte e cinco quilômetros por hora daqui até Agloe. Já se passou uma hora inteirinha desde que Ben avisou que precisava ir ao banheiro, e o motivo é um só: ele está dormindo.
Exatamente às seis da tarde ele tomou um pouco do remédio para gripe. Se deitou no último banco, e então Lacey passou os dois cintos de segurança nele. O que o fez ficar ainda mais desconfortável, mas 1) Era para o próprio bem dele e 2) Todos nós sabíamos que em vinte minutos nenhum desconforto faria diferença, porque ele iria apagar de qualquer jeito. E é assim que ele está agora. Vamos acordá-lo à meia-noite. E eu acabei de colocar Lacey para dormir, às nove da noite, na mesma posição no banco atrás de mim. Vamos acordá-la às duas da manhã. A ideia é dormir em turnos para não ficarmos caindo no sono de manhã, quando estivermos chegando a Agloe.


A minivan se tornou uma espécie de casa: eu estou no banco do carona, que é a sala de visitas. A meu ver, é o melhor cômodo: tem bastante espaço e o assento é bem confortável. Sob o banco do carona fica o escritório, que contém o mapa dos Estados Unidos que Ben comprou no posto, o itinerário que eu imprimi da internet e o pedaço de papel no qual Radar fez as contas de velocidade e distância.
Radar está no banco do motorista. A sala de estar. É bem parecida com a sala de visitas, só que você não pode relaxar enquanto está nela. É mais limpa também. Entre a sala de estar e a sala de visitas, fica o console central, ou a cozinha. É ali que guardamos um vasto estoque de tirinhas de carne-seca, barrinhas de cereal e um energético milagroso chamado Bluefin, que Lacey incluiu na lista de compras.
O Bluefin vem em uma garrafinha de vidro toda enfeitada e tem gosto de algodão-doce azul. Também deixa a pessoa mais acordada do que qualquer outra coisa na história da humanidade, embora cause alguns tremeliques. Radar e eu concordamos em continuar bebendo Bluefin até duas horas antes do nosso turno de descanso. O meu começa à meia-noite, quando Ben acordar.
O banco atrás de mim é o primeiro quarto. É o pior quarto, porque fica perto da cozinha e da sala de estar, onde as pessoas estão acordadas e conversando, e de vez em quando o rádio fica ligado.
Atrás dele fica o segundo quarto, que é mais escuro, silencioso e, em geral, muito melhor do que o primeiro.
E no porta-malas fica a geladeira, ou o isopor, que atualmente contém duzentas e dez garrafas de cerveja nas quais Ben ainda não mijou, os sanduíches de peito de peru que parece muito mais com presunto e algumas Cocas.
A casa como um todo tem muitos pontos positivos. É toda acarpetada. Tem ar-condicionado e aquecimento central. Sistema de som em todos os cômodos. É verdade que possui apenas dezesseis metros quadrados de área útil. Mas o layout aberto é imbatível.

6° Capitulo (3p) - Cidades de Papel

Por algum motivo, aquele trecho da I-95 ao sul de Florence, na Carolina do Sul, parecia ser um point para motoristas na sexta-feira à noite. Ficamos presos em um engarrafamento por vários quilômetros, e, embora Radar esteja desesperado para ultrapassar o limite de velocidade, ele tem sorte quando consegue ir a mais de cinquenta por hora. Estou no banco do carona, e tentamos não nos preocupar brincando de “Aquele cara é um gigolô”, um jogo que inventamos.
A ideia é imaginar a vida das pessoas nos carros em volta. Estamos dirigindo ao lado de uma mulher latina em um Toyota Corolla bem ferrado. Eu a observo na penumbra.
— Largou a família para vir para cá — digo. — Imigrante ilegal. Manda dinheiro para casa na última terça-feira do mês. Tem dois filhos pequenos… o marido viaja muito a trabalho. Ele está em Ohio agora… só passa três ou quatro meses por ano em casa, mas eles ainda se dão muito bem.
Radar se inclina para a frente e dá uma olhada nela por meio segundo.
— Caramba, Q, não seja tão melodramático assim. Ela é secretária de um escritório de advocacia… veja só a roupa dela. Levou cinco anos, mas já está quase terminando o curso de direito que bancou sozinha. E não tem filhos, nem é casada. Mas tem um namorado. Ele é meio irresponsável. Tem medo de compromisso. Branco, um pouco bolado com essa questão meio Febre da Selva.
— Ela está de aliança — o corrijo.
Diferente de Radar, tive bastante tempo para analisá-la. Ela está à minha direita, um pouco abaixo de mim. Consigo vê-la pelo insulfilme, e a observo enquanto ela cantarola alguma música do rádio, os olhos fixos na pista. São tantas pessoas. É tão fácil se esquecer de como o mundo é cheio de pessoas, lotado, e cada uma delas é imaginável e sistematicamente mal interpretada. Acho que esse é um pensamento importante, uma daquelas ideias que o cérebro precisa cozinhar lentamente, na mesma velocidade que as pítons digerem o alimento. Mas, antes que eu possa elaborar um pouco mais, Radar fala:
— Ela só está de aliança para que nenhum pervertido dê em cima dela — explica ele.
— Talvez.
Sorrio, pego o resto da barrinha de cereal no meu colo e dou uma mordida. Permanecemos em silêncio por um tempo, e fico pensando no jeito como você pode enxergar ou deixar de enxergar as pessoas, pensando na janela escura entre mim e essa mulher que ainda está dirigindo bem ao nosso lado, nós dois dentro de carros com janelas e espelhos para todos os lados, enquanto ela se arrasta conosco pela rodovia engarrafada.
Quando Radar volta a falar, percebo que ele também estava pensando:
— O lance do “Aquele cara é um gigolô” é que, no final das contas, ele revela mais sobre a pessoa que está imaginando do que sobre a que está sendo imaginada.
— É — concordo. — Eu estava pensando exatamente nisso. E não consigo deixar de pensar que Whitman, com toda aquela beleza exagerada, talvez estivesse sendo otimista demais. Conseguimos escutar os outros e podemos viajar até eles sem sair do lugar, imaginá-los, e estamos todos interligados por um sistema radicular meio doido, como o das folhas de relva — mas o jogo me faz imaginar se somos realmente capazes de nos tornar os outros.